A humanidade só será melhor se cuidarmos da Primeira Infância

Esta afirmação permeia todo o filme “O Começo da Vida”, seja na voz das famílias, seja no depoimento de especialistas. Este post traz uma entrevista exclusiva com a Doutora Vera Cordeiro, que também aparece no filme. Aqui ela explica porque essa verdade deve fazer parte de nosso cotidiano, se quisermos um futuro melhor para o mundo e para o País.

Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal – No filme “O Começo da Vida”, você faz uma pergunta que provoca certo “incômodo”: Como pensar em um mundo de paz, se o começo da vida não é levado em conta?
Vera Cordeiro *– É exatamente isso. Não tem como construir um mundo melhor sem uma família, um capital humano que ajude a criança a se desenvolver. Por isso, cuidar só da criança não é o suficiente. A família precisa de um suporte para que possa cuidar dos seus. Ela precisa ser saudável e isso tem a ver com a autoestima, entender o que cada membro da família está vivendo, seus limites e potenciais. Quando falamos em saúde, temos de olhar o todo, ou seja, educação, assistência social, tudo integrado. Nós não podemos nos esquecer de que a família é um agrupamento humano que se relaciona com a comunidade e com o país, ou seja, tudo o que acontece nesses âmbitos atinge o núcleo familiar.

FMCSV – Isso significa que os profissionais que atuam diretamente com a criança precisam estar mais atentos à família também.
VC – Mais que isso. Eles precisam olhar para a família sem julgamentos, procurando entender qual a sua dinâmica, como são os seus arranjos, identificando os valores que regem essa pequena comunidade para poder dialogar melhor. Bater nos filhos, por exemplo, é algo comum em muitos lares como uma forma de estabelecer limites. Se um pai ou uma mãe age assim, provavelmente está reproduzindo o que experimentou na própria infância. Taxá-lo de violento não contribui em nada. Se o profissional estiver disposto a ouvir e entender o que leva um pai ou uma mãe a bater, sem julgar, também poderá ajudá-lo a encontrar outras formas de educar a criança sem o uso da violência física. Nós não podemos impor os nossos valores a outras famílias.

FMCSV – Quais mecanismos os profissionais podem usar para acolher essa mãe, esse pai?
VC – No caso das mães, é importante que conversem com outras mães, que convivam, troquem ideias, experiências, dúvidas. Por isso, criar grupos é muito importante e uma dinâmica já utilizada por alguns programas sociais e ONGs. Se a mãe percebe que não está sendo julgada, mas compreendida, ela se abre e pode mudar o comportamento com seus filhos. Outra estratégia essencial é visitar a família, fazer um diagnóstico para saber como ela vive, com quem conta, quais recursos tem na comunidade (vizinhos, amigos). O entorno pode ser um apoio à criação dos filhos.

FMCSV – De que forma a sociedade pode cuidar melhor da criança?
VC – A nossa sociedade é muito desconectada. Uns com os outros e os indivíduos com os próprios sentimentos. A necessidade do ter é a base de nossa estrutura social. O indivíduo se desconecta dos próprios sentimentos e quer educar outro ser. Como é possível acolher a raiva da criança se ele não sabe lidar com a própria raiva, por exemplo? Primeiro temos de mudar a nossa forma de ser e estar no mundo para depois transformar as famílias, a sociedade, e, finalmente, cuidar da criança. No nosso país, a cidadania é exercida através do voto. Em muitos países há uma participação mais solidária, as pessoas se organizam em grupos para enfrentar os problemas juntos. A sociedade brasileira precisa mudar. Ela precisa ser mais pulsante.

FMCSV – Como estabelecer uma relação com a criança para que esse cuidado aconteça naturalmente e cotidianamente?
VC – Precisamos desenvolver uma cultura mais empática. Entender os sentimentos chamados de negativos, que precisam ser conhecidos pelos cuidadores para que criem espaços afetivos que acolham a criança. O papel das famílias, dos cuidadores é ajudá-la a traduzir suas emoções. Se a criança for repreendida o tempo todo, ela não poderá se tornar afetiva e amorosa. É importante que o adulto seja permeável à alegria da criança, se deixe levar pelo sorriso encantador dos pequenos, para que ele faça eco e desperte a criança que existe dentro da gente. Dessa forma é que acontece a conexão com a criança e que ela se sente cuidada. Não é só ela quem ganha com isso, porque a criança é a energia solar dos adultos. O convívio com ela deve ser percebido como um dos momentos mais importantes de nossas vidas.

*Doutora Vera Cordeiro é fundadora e Presidente do Conselho de Administração da Associação Saúde Criança. Graduou-se em 1975 como médica clínica geral pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. De 1978 a 1998, trabalhou no Hospital da Lagoa. Dra. Vera é fellow da Ashoka, líder da Avina, Empreendedora Social da Schwab Foundation e da Skoll Foundation. Membro do Conselho Mundial da Ashoka e membro honorário da Academia de Medicina do Rio de Janeiro. De 2005 a 2011 foi membro do conselho do PATH: A Catalyst for Global Health.

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Comments

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  1. avatar

    Amei essa matétia, muito clara e completa!

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