As 5 qualidades e as 5 fragilidades da educação infantil brasileira

Nesta entrevista, Claudia Costin faz uma análise do tema, a partir de sua ampla experiência, das vivências como Diretora Global de Educação do Banco Mundial, cargo que exerceu até início de junho, e dos anos em que assumiu a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Na primeira parte de nossa conversa com Claudia Costin, que você pode reler no post “7 ações que fortalecem a educação infantil, segundo Claudia Costin”, ela compartilhou sua experiência como Secretária de Educação (2009-2014). Nesta entrevista, Claudia enumera os avanços e os atuais problemas da educação infantil brasileira.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – Vamos começar pelas conquistas. Você pode indicar cinco qualidades da educação infantil que devemos valorizar e fortalecer?
Claudia Costin – Primeiro, vejo uma progressiva conscientização sobre a inegável importância dessa etapa do desenvolvimento da criança (aí incluído o cuidado, a Educação e a formação de vínculos) por parte da sociedade. Também tivemos uma expansão da rede de Educação Infantil e a decisão corajosa do Brasil de garantir que toda criança de 4 e 5 anos esteja na escola, o que aumenta as chances de sucesso escolar posterior e garante a essa faixa etária o acesso a práticas sociais que serão importantes para a vida. Outro passo importante foi o de passar a avaliar a educação infantil, porque só avaliando é possível detectar o que está ruim e precisa mudar e o que está bom e tem de ser preservado. O País também avançou na fiscalização das creches e escolas particulares, ao capacitar os conselhos municipais de Educação que têm essa atribuição. Ainda não se resolveu tudo, mas já mudou muita coisa. Mais um fato importante é que as pessoas estão se dando conta da necessidade de construir prédios especialmente pensados para essa fase do aprendizado, com espaços e materiais apropriados para o brincar, tão importante nessa etapa. Por fim, mas não menos importante – e um sexto tópico -, a questão da leitura, fundamental para o desenvolvimento da criança não só na creche e na pré-escola, mas, também, nas famílias. A Educação Infantil tem crescentemente colocado livros ao alcance dos bebês e crianças e trabalhado com os pais a importância da leitura em casa.

FMCSV – Claudia, agora é a vez de enumerar as fragilidades.
CC – Temos ainda o problema da falta de equidade. A desigualdade começa cedo. Aqueles com mais renda acabam sendo os que mais têm acesso a creches. Entre os mais pobres, apenas 22,4% têm esse acesso, enquanto, entre os mais ricos, são 51,2%. E, infelizmente, a despeito da expansão da rede, essa desigualdade aumentou na última década. A melhor estratégia para enfrentar esse problema é focar a oferta de vagas públicas nos mais pobres, enquanto não há vagas para todos. O Brasil tem um bom cadastro de famílias em situação de pobreza extrema. Devemos priorizar exatamente elas. Outra questão é a baixa qualidade dos serviços educacionais nessa fase. Fiz muitas visitas em creches em cidades brasileiras e, não raro, as crianças estavam na frente da TV, assistindo a vídeos, sem interação entre elas e entre os adultos, sendo essa a principal atividade do dia. A falta de investimento no preparo do professor é outro obstáculo. Em alguns municípios, o pré-requisito para educadores de creches era ter terminado o ensino fundamental como, infelizmente, acontecia no Rio de Janeiro. Por outro lado, a universidade que forma os professores tampouco os prepara adequadamente para essa fase. A Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas, fez um estudo mostrando a inadequação dos currículos para a profissão de professor, inclusive para o ensino de crianças pequenas. A ênfase, diz ela, está nos fundamentos da educação. Pouco é compartilhado sobre como acontece o desenvolvimento do cérebro da criança nessa fase, como ela pensa e aprende, de que forma ensinar alunos com deficiência ou vítimas de estresse tóxico, eu acrescentaria. O quarto problema são instalações inadequadas. Faltam condições que favoreçam a aprendizagem da criança, que nessa fase se dá basicamente por meio do brincar, e o trabalho do educador e cuidador. Essas mudanças não exigem grandes investimentos. Podem ser iniciativas simples e eficientes, como manter nas salas livros que a criança possa alcançar, espaços abertos onde possa correr com segurança, brinquedos adequados à proposta pedagógica. Outra questão é a da falta de um currículo para a etapa, que especifique expectativas de aprendizagem, o que leva muitas vezes a uma concentração do tempo exclusivamente no cuidar ou em não oportunizar o contato das crianças com atividades que possam ajudar a desenvolver competências cognitivas e socioemocionais. Isso não significa que temos que escolarizar precocemente a criança, no sentido de ter um horário com diferentes disciplinas. A criança deve, por meio do seu processo natural de brincar, exposta a diferentes atividades e materiais previamente definidos pela equipe escolar, com base num currículo pautado em competências, ter vivências no espaço da creche e pré-escola que a apoiem o seu desenvolvimento integral e a preparem para as fases posteriores de aprendizagem.

 

Claudia Costin é uma das palestrantes do evento “Educação 360º – Educação Infantil”, dia 30 de junho. Você pode assistir pela internet, nos sites dos jornais O Globo e Extra e do Canal Futura.

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