Entrevista – “A atuação na educação infantil ainda é muito intuitiva”

Rafael Parente é educador e um empreendedor da educação, envolvido em projetos que trazem inovação à aprendizagem. Nesta entrevista, ele expõe suas ideias e opiniões de como a educação infantil pode avançar, além de discutir a importância do apoio aos gestores públicos na implementação de inciativas que promovam redes de ensino mais eficazes.

Fundação Maria Cecilia – Em sua opinião, qual o nosso maior desafio quando o tema é educação infantil de qualidade?
Rafael Parente – Creio que temos, na verdade, um conjunto de desafios pela frente para garantir qualidade no que é oferecido pelas creches e escolas de educação infantil. Um deles é a construção de um currículo bem organizado, por meio da Base Nacional Curricular Comum. Outro é elaborar e disponibilizar materiais e ferramentas eficientes, além de condições e espaços de trabalho adequados, que estimulem o aprendizado e a interação. Também precisamos focar na formação dos profissionais que têm contato com a criança, tanto na sua formação inicial como, também, por meio de cursos técnicos. Incluo ainda a organização da rotina das crianças e dos profissionais para potencializar o trabalho que está sendo desenvolvido.

FMC– Você acha que há clareza sobre o que um profissional da educação infantil precisa ter e saber para exercer seu papel com mais propriedade?
RP – Creio que ainda não. Acredito que precisamos investir no mapeamento das habilidades e competências esperadas para esse profissional, estruturando cursos de formação inicial e técnicos que trabalhem o desenvolvimento de características e conteúdos que o profissional precisa ter e conhecer. Ainda vemos nas escolas de educação infantil uma atuação muito mais intuitiva do que baseada na ciência e nos aspectos do desenvolvimento infantil.

FMC – Como ajudar os gestores públicos (prefeitos, secretários municipais de educação) a avançarem nesses quesitos para qualificar a educação infantil de suas cidades?
RP – Precisamos criar um espaço onde sejam disponibilizados materiais e experiências bem-sucedidas focados nas creches e pré-escolas, como currículos, materiais de apoio à gestão e à criação de rotinas, princípios norteadores, tendências em educação infantil, exemplos de conteúdos e práticas de formação para professores, formatos de planejamento, dentre outras ferramentas de apoio. Existe muita coisa a respeito, mas é pouco divulgada, está dispersa e, muitas vezes, inacessível. Os gestores estão meio perdidos nesse tema e essa seria uma contribuição fundamental para fortalecer as diferentes redes de ensino.

FMC – Outros países já disponibilizam essas ferramentas?
RP – Sim. Existem governos e instituições do terceiro setor de alguns países que disponibilizam desde currículos até planejamento de atividades e formações ao professor para que os gestores tenham acesso. Alguns exemplos são o Pre-Kinders, o site do Governo do Canadá, o site do Governo de QueensLand, na Austrália, dentre outros.

FMC – Você desenvolve um trabalho que une “novas” e “velhas” tecnologias para a criança brincar e, ao mesmo tempo, aprender, descobrindo o mundo. Conte pra gente como isso se dá.
RP – Existem, basicamente, três linhas de pensamento sobre a relação entre o brincar e a intencionalidade pedagógica. A primeira defende que o brincar na escola deva ser livre. O segundo acredita no modelo híbrido, em que há momentos livres e outros direcionados a um aprendizado. Por fim, existe o grupo que defende um brincar na escola sempre com uma intenção pedagógica definida. Um dos projetos que desenvolvo é o Conecturma ,que transita justamente nesse grupo do brincar híbrido. Em uma plataforma online, e em livros didáticos e paradidáticos, a criança e o adulto encontram diferentes desafios que misturam as formas de explorá-lo, com brincadeiras com fantoches, montagem de blocos, massinha e, também, com tecnologias digitais, como games interativos.

FMC – Como que a criança se identifica com a plataforma? Além da interatividade, ela “brinca” com personagens?
RP – Exatamente. Crianças dos 3 aos 11 anos encaram os desafios com uma turma de personagens. Um deles, por exemplo, vê números em tudo. Nós sabemos que os números realmente estão em toda a parte. Aproveitamos esse gancho lúdico para desenvolver conceitos matemáticos. Também tratamos das competências socioemocionais nas atividades, como a questão do erro, ou seja, todo mundo erra. Errar faz parte. O mais importante é tentar sempre.

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Rafael Parente é formado em publicidade, mestre em gestão da educação e doutor (PhD) em educação internacional e desenvolvimento.  Também é co-fundadore CEO da Aondê/Conecturma.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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