Entrevista – “A família é essencial ao desenvolvimento humano do País”

Na conversa de hoje, a economista Esmeralda Correa Macana, pesquisadora em desenvolvimento humano e infantil, vai abordar o papel da família na construção de uma sociedade mais digna e sustentável, a partir das relações que estabelece com a criança. Confira!

Fundação Maria Cecilia – Para começar a nossa conversa, defina para nós o que são práticas parentais.

Esmeralda Correa Macana – As práticas parentais são ações concretas para ensinar determinados valores e comportamentos a crianças. Desde práticas de disciplina e definição de limites, até expressões afetivas como beijos e abraços. As práticas parentais devem buscar a educação e o pleno desenvolvimento infantil. Mas nem sempre ocorre assim. Consciente ou inconscientemente, os pais podem exercer práticas negativas, por exemplo, corrigir os filhos por meio de insultos, gritos e humilhações. Ou podem exercer uma disciplina relaxada, sem a imposição de limites adequados. Assim, dependendo o tipo de prática, os impactos tendem a ser positivos ou negativos no desenvolvimento das crianças.

FMC – Por que o papel da família é tão importante no desenvolvimento da primeira infância?

ECMA família é o primeiro espaço de socialização e dependência da criança. Ela toma decisões que influenciam seu bem-estar, como o tipo de alimentação, os hábitos e, inclusive, se a criança frequenta ou não centros de cuidado e de educação. Além disso, é em meio à família que se criam os relacionamentos mais significativos e que sustentarão o desenvolvimento de diferentes habilidades, como as cognitivas e as socioemocionais. Este é um papel que dificilmente outro espaço social, como a escola, poderá exercer.

Um claro exemplo do papel tão importante da família é sua influência no desenvolvimento do cérebro. As experiências e a repetição de estímulos definem caminhos neurais, os quais formam a estrutura cerebral. Por outro lado, a regulação das emoções e o sentido de moralidade e empatia das crianças também é um processo moderado pelos pais por meio das práticas e dos estilos parentais. Pais mais responsivos, que atuam de forma confiável, reforçam nas crianças maior segurança e autoestima. Em contraste, reações agressivas estimulam comportamentos violentos nos filhos.

FMC – A senhora pode citar algumas práticas parentais positivas e outras negativas para esse desenvolvimento?

ECM – Além das práticas positivas que mencionei inicialmente, pode-se citar o comportamento moral. Isso significa que as crianças aprendem com o exemplo e comportamento dos pais. Atitudes como generosidade, humildade, compaixão ou justiça criam um cenário favorável de aprendizado e faz com que os filhos passem a se identificar com esses mesmos valores.

Outras práticas são o diálogo, expressões afetivas e disciplina. Mas, uma prática que é fundamental na primeira infância, é o envolvimento dos adultos no brincar das crianças. Essa interação fortalece os relacionamentos entre pais e filhos. Além de todos os benefícios para o desenvolvimento físico-motor e cognitivo.

Entre as práticas negativas está a disciplina relaxada, que consiste em colocar regras e não fazê-las cumprir. A punição inconsistente é outra forma, em que os pais corrigem seus filhos conforme o estado emocional em que se encontram. Em algumas ocasiões ignoram comportamentos inadequados e em outras exageram nas punições.

FMC – Sabemos que existem vários fatores internos e externos que influenciam o desempenho das famílias para que a criança possa se desenvolver plenamente. Quais fatores são os mais determinantes para fortalecê-lo? E quais fatores acabam por prejudicar esse desenvolvimento?

ECM – Os fatores externos são, por exemplo, aspectos socioeconômicos como a pobreza ou padrões demográficos como as separações e divórcios. Mas, independentemente dos distintos arranjos ou condições de vida, o que tem maior impacto nas crianças são as práticas e estilos parentais, que representam fatores internos das famílias. Estes definem o clima emocional e os relacionamentos entre pais e filhos. Mas isso é um assunto complexo, porque a dinâmica da família é influenciada por fatores como a pobreza. Por exemplo, as famílias que enfrentam privações e dificuldades acabam afetando as crianças, não só por carências básicas como alimento, mas também por carências emocionais por falta de estímulo. Os pais podem estar sobrecarregados, trabalham longas horas e lidam com maior estresse. Portanto, é a junção de distintos fatores que influenciam as práticas dos pais. E são estas que, ao final, são as mais determinantes para o desenvolvimento infantil.

FMC- O que políticas públicas voltadas a famílias devem focar para criar intervenções que minimizem os fatores prejudiciais ao bem-estar da criança, especialmente aquela em situação de vulnerabilidade?

ECM – O primeiro foco das politicas públicas voltadas ao bem-estar da infância é o potencial das famílias. Isso significa ver as famílias como parte da solução. São necessárias politicas que incentivem uma articulação com elas, que devem ser sensibilizadas e capacitadas sobre a importância de determinados estímulos para as crianças. Assim, ações que contribuam no fortalecimento das práticas parentais educativas são essenciais.

FMC – Você tem exemplos de políticas públicas que estão cumprindo esse papel, no Brasil?

ECM – Um exemplo no Brasil é o Programa Primeira Infância Melhor (PIM), do governo do Rio Grande do Sul, que já se expandiu para outros estados. Esse programa é dirigido a famílias em situação vulnerável com crianças até os seis anos. Por meio de visitas domiciliares promove a orientação das famílias sobre práticas e estímulos conforme as características particulares das crianças.

Existem outras ações públicas e privadas que fomentam maiores vínculos entre a família e a escola, como a escola para pais. Algumas têm instituído oficinas e atividades para instruí-los sobre práticas educativas e sobre como lidar com determinados comportamentos dos filhos. Mas, os benefícios deste tipo de intervenções centram-se em crianças que frequentam a escola, geralmente a partir dos quatro anos. Portanto, o desafio continua a ser em famílias com crianças de zero a três anos.

O Programa Coordenadores de Pais, fomentado pela Fundação Itaú Social, é outra experiência com impactos significativos. A iniciativa busca aproximar a família da escola e parte dos impactos gerados tem sido um maior envolvimento nas rotinas de estudo dos filhos, que constitui uma prática essencial para a criança ter prazer na escola e no processo de aprendizado.

FMC – A senhora acha a nossa sociedade valoriza a família como fonte fundamental ao desenvolvimento infantil?

ECMO Brasil tem ainda muito que avançar nesse reconhecimento para incentivar ações com uma visão mais inclusiva das famílias. Isto porque, de modo geral, parte dos recursos que temos para promover o desenvolvimento das crianças está dentro de casa, a partir dos relacionamentos entre pais e filhos. Temos que orientar e apoiar a família nesse processo de educação, com a articulação sistemática de múltiplos setores. Mas cabe a todos, como sociedade, a responsabilidade de fomentar a primeira infância com as ações e atitudes que tomamos no dia a dia e que determinam a dinâmica familiar.

Esmeralda Correa Macana é doutora em Economia do Desenvolvimento, professora de Ciências Econômicas na PUC-RS e pesquisadora na área de desenvolvimento humano, em temas como educação na primeira infância e a importância das habilidades cognitivas e socioemocionais.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Leia mais

Entrevista – “Para conhecer uma criança é preciso estar atento a ela”

Entrevista – Como ser pai, mãe, avô, avó… de um jeito saudável, que apoie a criança?

Confira a página Desenvolvimento Infantil, da Fundação Maria Cecilia, no canal do Youtube. Acesse, assine o canal e compartilhe o que é preciso saber sobre a primeira infância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*