Entrevista – Como ser pai, mãe, avô, avó… De um jeito saudável, que apoie a criança?

Maria da Saudade é uma profissional da Saúde, de Portugal, especialista em parentalidade, ou seja, as funções e responsabilidades dos adultos que se relacionam diretamente com a criança. Nesta entrevista para o blog, ela discute o tema e dá dicas importantes para aqueles que querem, de fato, contribuir ao bom desenvolvimento infantil.

Fundação Maria Cecilia – O tema de seu doutorado, defendido em 2012, foi sobre o apoio à parentalidade positiva. Como você define essa parentalidade?

Maria da Saudade de Oliveira Custódio Lopes – O termo parentalidade já indica um processo positivo que inclui o conjunto de funções e responsabilidades atribuídas aos pais ou cuidadores com vista a otimizar o crescimento e desenvolvimento da criança. Consequentemente a designação de parentalidade positiva aparenta alguma redundância. Mas, o termo positivo associado à parentalidade é usado, por vários autores, para reforçar o uso do amor e do relacionamento positivo com a criança, o reconhecimento do valor da criança como valioso membro da sociedade e a otimização do seu potencial de desenvolvimento. O termo positivo também dá uma orientação saudável à parentalidade e uma intervenção mais preventiva centrada em fatores protetores do bem-estar das crianças e famílias e não só nos fatores de risco ou nos problemas diagnosticados.

FMC – Você acredita que as habilidades parentais possam ser aprendidas por meio de políticas públicas focadas na família?

MSOCL– A família é um ecossistema de extrema importância para a criança e um quadro de referência de valores, crenças e atitudes que a caracterizam e lhe dão singularidade. É o meio social da criança e um recurso fundamental na resposta às suas necessidades. A criança necessita de habitação, alimentação e segurança, mas também de afetos, amor e interações positivas. Todos os membros da família servem de exemplo para a criança e devem assumir atividades cotidianas que previnam comportamentos de risco e fomentem comportamentos desejados. Para isto ser garantido, a família necessita de condições socioeconômicas básicas, ambiente familiar propício e habilidades parentais que atendam às necessidades da criança e aos seus superiores interesses.
Deve haver políticas públicas que apoiem e capacitem as famílias, fortalecendo o seu potencial e respeitando a sua individualidade.

FMC – Quais são as principais e essenciais habilidades parentais que todos os pais e adultos de referência deveriam ter para contribuir, de fato, ao bom desenvolvimento infantil?

MSOCL – No exercício da parentalidade é fundamental que os pais compreendam a importância do seu papel no desenvolvimento da criança e que assumam habilidades essenciais para responder às necessidades e ao melhor interesse da criança. Estas habilidades assumem formas diferentes de acordo com as fases de desenvolvimento da criança, mas há habilidades que são fundamentais e transversais a todas as fases:

• Compreensão da criança e das suas fases de desenvolvimento.
• Conhecimento do tipo de acompanhamento e disciplina mais adequados em cada fase de desenvolvimento da criança e o ambiente que deve ser proporcionado.
• Sensibilidade e capacidade para interpretar os sinais da criança e para a resposta apropriada.
• Sincronia repetitiva na interação com a criança, em que os estímulos estão em sintonia com os comportamentos.
• Trocas afetivas de qualidade em todas as interações.

As estas habilidades, que são fundamentais, juntam-se outras essenciais que otimizam o desenvolvimento da criança, como:

Alimentação, sono, saúde e segurança: nos procedimentos na amamentação, na introdução de novos alimentos e diversificação alimentar, na identificação de alimentos saudáveis, na preparação das primeiras sopas, no estabelecimento do padrão de sono da criança, na preparação de um ambiente seguro para a criança e isento de situações tóxicas, na vigilância da saúde da criança, a perceber os sinais de doença na criança e a cuidar quando tem cólicas e quando está doente.
No desenvolvimento, comportamento e estimulação da criança: adequar o ambiente ao desenvolvimento e interesse da criança e com oportunidades de aprendizagem, saber quais as ações que a estimula, saber escolher os materiais de aprendizagem de acordo com a sua idade, saber quais as atitudes que promovem comportamentos adequados na criança e aproveitar todos os momentos de interação (banho, alimentação, passeios, convívio) para estimular a criança e o lidar com as birras.

Na comunicação positiva: as respostas às necessidades da criança e os relacionamentos que se estabelecem nas interações mencionadas, para além de afetivos, devem manifestar-se com comportamentos adequados, com tom de voz especial, com ternura e com sorriso, direcionados para a criança e com atitudes protetoras de que é exemplo a consolação em resposta ao choro.

Na disciplina positiva: compreender a importância da disciplina como forma de promover o autocontrolo da criança e o estabelecimento dos próprios limites, assumir técnicas parentais para ensinar comportamentos desejáveis em substituição de ações (castigos, ameaças e restrições) para eliminar comportamentos indesejáveis, como resolver conflitos e como estabelecer regras apropriadas à idade e ao desenvolvimento da criança. Sobrevalorizar os pontos positivos da criança e as formas positivas de disciplina e ser um bom modelo para a criança.

FMC – Quais as maiores dificuldades enfrentadas pelos pais e responsáveis para exercer essa parentalidade sadia, especialmente nos três primeiros anos de vida?

MSOCL – O estudo que realizei evidenciou que os pais sentiam dificuldades em todas as áreas aqui mencionadas. Contudo, no primeiro mês da criança, as maiores dificuldades estavam nas respostas a processos fisiológicos, nomeadamente quando a criança tem cólicas pelas crises de choro associadas, na amamentação, principalmente ao avaliar se o leite é suficiente para a criança, no estabelecimento do padrão de sono e o cuidar quando a criança está doente. Também foram referidas dificuldades na interpretação dos sinais que a criança utiliza para comunicar. Na área do desenvolvimento, comportamento e estimulação as dificuldades mais sentidas foram na idade da criança compreendida entre os treze e os vinte e quatro meses, nomeadamente no conhecimento das ações que estimulam a criança e nas atitudes que promovem comportamentos adequados nas crianças. As dificuldades na disciplina foram referidas, em grande percentagem, a partir dos treze meses da criança, mas mais a partir dos 24 meses e especificamente na utilização de disciplina positiva, em vez de castigos, ameaças e restrições.

Na segunda parte dessa entrevista, confira como a área da Saúde, especialidade de Maria da Saudade, pode ajudar as famílias a exercerem uma parentalidade positiva, que contribua ao desenvolvimento infantil. Não perca!

Maria da Saudade de Oliveira Custódio Lopes é professora adjunta na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria, Portugal

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Leia mais

Todas as famílias exercem a parentalidade. Você sabe o que é isto?

Vínculos na primeira infância: a base de sustentação para toda a vida

Confira a página Desenvolvimento Infantil, da Fundação Maria Cecilia, no canal do Youtube. Acesse, assine o canal e compartilhe o que é preciso saber sobre a primeira infância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*