Entrevista – Conheça o movimento “Para os papais”

Nossa conversa de hoje é com Leandro Ziotto, pai e um dos criadores da 4daddy, uma plataforma on-line que reúne informações e experiências sobre paternidade ativa, ou seja, pais que cuidam e convivem com os filhos tanto quanto as mães. Ele nos conta como a ideia surgiu e os avanços que a sociedade precisa trilhar no tema, já que ser pai, segundo ele, é uma pauta social, de todos nós. Confira!

Fundação Maria Cecilia – O que é o 4daddy e como surgiu esse movimento?
Leandro Ziotto – O 4daddy, como ideia, nasceu de um anseio pessoal. Eu comecei a me relacionar com a minha ex-esposa e ela já tinha um filho, o Vinícius, na época com 3 anos. Um ano depois fomos morar juntos e, por mais que eu e o Vini tivéssemos uma sintonia muito boa, desde o início de forma muito natural, foi um desafio para todos nós, pois era uma dinâmica nova. O Vini, lógico, teve dificuldade de dormir no quarto novo. Depois de alguns dias, eu pesquisei na internet a seguinte frase: “Como colocar uma criança de 4 anos para dormir?” E vieram muitos conteúdos, bons e ruins também, mas todos voltados para as mães. Fiquei surpreso! E vi aquilo como uma oportunidade. Foi quando senti a cultura machista me atingir de forma mais consciente. Foi ali, também, que tive a ideia. Mas apenas em 2015, com meu amigo Daniel, que também se sentia desafiado pela paternidade, é que colocamos o primeiro formato do 4daddy no ar.

Fundação – Um site para pais não era algo comum. O que os levaram a acreditar que era uma boa ideia?
LZ – Desde o início queríamos que o 4daddy fosse um portal, com matérias escritas por profissionais e parceiros capacitados. Antes de colocar o site no ar, fizemos um grupo fechado no Facebook para testar e, em menos de quinze dias, tínhamos 600 homens interagindo entre si. Hoje o 4daddy é uma plataforma de formação paterna, onde apoiamos pais e cuidadores em geral, com cursos, matérias, bate-papos, palestras… Nosso objetivo é sensibilizar a sociedade civil e o Estado sobre a importância da figura paterna na criação e educação de nossas crianças e nossos adolescentes.

Fundação – Quais temas o portal aborda e de que forma?
LZ – Oferecemos matérias (três inéditas por semana) escritas por parceiros das diversas áreas como saúde, educação, entretenimento, políticas públicas etc. Temos também cursos on-line que abordam temas importantes voltados aos desafios dos pais no dia a dia, sempre de forma prática. Também damos palestras em empresas, ONGs, escolas e comunidades. Estamos começando a organizar bate-papos entre pais.

Fundação – Conte pra gente o conteúdo do manifesto que vocês estão divulgando, sobre a causa da paternidade responsável, e quais os objetivos dessa mobilização.
LZ – Esse manifesto/carta, direcionada a sociedade civil e ao Estado, foi produzida após dois anos nesse universo de primeira infância, juventude, políticas públicas e vida paterna. Tivemos o apoio de grupos de trabalhos e redes dos quais participamos, como a Rede Nossa SP e Rede Nacional Primeira Infância (RNPI). Na carta tem informações produzidas por organizações que levantam bandeiras iguais às do 4daddy, como o Instituto ProMundo e o Instituto Papai. Nosso objetivo é sensibilizar a sociedade e agentes políticos sobre a importância da presença da figura paterna na criação de crianças e adolescentes. Queremos combater essa cultura conservadora e machista e influenciar políticas públicas.

Fundação – Você é pai. Como você se viu nesse papel? O que te ajudou a exercer uma paternidade ativa?
LZ – O Vini é meu filho afetivo. E, mesmo hoje, separado da mãe dele, ainda mantemos contato. Busco-o diariamente na escola, ele dorme comigo alguns dias. Eu e a mãe dividimos a responsabilidade de sua criação. Temos um ótimo vínculo e muita parceria nesse sentido. Brinco que não tive os nove meses para amadurecer a paternidade. Dormi solteiro e acordei casado e pai (rssss). Mas o Vini é um dos melhores acontecimentos de minha vida. Ele me mostrou a importância de sermos protagonistas de nossas histórias e que tenho responsabilidade de deixar um mundo melhor pra ele. Por isso, tento sempre melhorar continuamente a minha cidadania e paternidade.

Fundação – Quais os principais preconceitos que os pais de hoje enfrentam quando assumem aquilo que, de fato, devem ser junto aos seus filhos?
LZO machismo mata e violenta mulheres diariamente, mas castra homens também. É uma cultura ruim pra todos. Hoje a paternidade está mais em alta. Mas temos muito que evoluir. Acredito que estamos numa revolução silenciosa e um novo conceito do ser masculino está surgindo com essa nova paternidade. Além do preconceito, tem também a falta de pertencimento do homem. Mas são desafios que estamos ultrapassando.

Fundação – De que maneira políticas públicas podem mudar a visão da paternidade para que ela se torne cada vez mais ativa no dia a dia as famílias?
LZ – É um assunto complexo. Uma cultura não se muda assim, mas com muito estudo e análise. No final, agir e implementar, mesmo cometendo erros, mas agindo. Políticas públicas como o aumento da licença- paternidade, a punição contra pais ausentes, a criação de programas sociais de inclusão paterna em assuntos do cuidar, a descriminalização do aborto são alguns pontos importantes.

Fundação – Você conhece algum exemplo de políticas públicas ou programas sociais que fazem isso, aqui ou em outros países?
LZ – O aumento da licença-paternidade, mesmo que ainda pequena, já é um avanço. Na Europa, esse conceito e cultura já são bem mais avançados, mas isso também está atrelado à forma de encarar o trabalho, o capital etc. O tema paternidade não é só uma questão de pai e filho. É um tema social.

Fundação – Como participar do 4daddy?
LZ – Apoiando a campanha social #paternidaderesponsável. Para saber mais, é só entrar no site. Também temos um vídeo que vale assistir . A forma de apoiar é bem simples: mandar uma foto ou um vídeo para a campanha.

Participe da campanha, divulgando-a em seu município e criando ações que possam sensibilizar as famílias de sua cidade para este tema, essencial ao desenvolvimento na primeira infância.

As opiniões emitidas pelo entrevistado são de sua inteira responsabilidade e não necessariamente representam a opinião da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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Comments

1
  1. avatar

    Toda a forma de transmissão de conhecimento deve ser parabenizada. Principalmente em um pais como o Brasil, que na sua atual conjuntura política e institucional, só vem propagando o descrédito e criminalidade. Péssimos exemplos aos filhos da pátria! Ohh meu pai…

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