Entrevista Especial – Por que alguns programas sociais não dão certo?

Marcia Castro participará da mesa que vai discutir essa e outras questões no VI Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, em Recife, PE, dias 7 e 8 de novembro. Marcia é Professora Associada de Demografia na Harvard T.H. Chan School of Public Health e concedeu esta entrevista ao nosso blog.

Fundação Maria Cecilia – No VI Simpósio, você vai falar sobre desenvolvimento da primeira infância em realidades de diversidade e vulnerabilidade. Quais aspectos pretende destacar?
Márcia Castro – Pretendo discutir a questão da diversidade e da vulnerabilidade ressaltando o contexto local. O fato de que intervenções que foram bem-sucedidas em algumas localidades não apresentem resultados satisfatórios em outras, pode não ser uma falha da intervenção em si, mas do contexto onde elas foram aplicadas. Características sociais, comportamentais, ambientais e o modelo local de incidência de doenças resultam em distintos padrões de vulnerabilidade, que demandam intervenções adaptadas a esse cenário. Quando se trabalha com desenvolvimento infantil, é difícil imaginar que haja uma combinação de intervenções/programas ideal para todas as realidades. É preciso considerar as idiossincrasias locais.

FMC – Você tem um exemplo prático para ilustrar essa questão?
MC – Veja o exemplo da epidemia de zika vírus. A doença expôs questões de saúde da mulher, direitos reprodutivos, acesso regular à água potável e coleta de lixo, saneamento básico, saúde mental, efeitos em recém-nascidos e adultos. E além de ser transmitida por mosquitos, também se dissemina por contato sexual. Em grande parte, as áreas que mais sofreram com a doença são as com significativa parcela de população vulnerável. Esse contexto precisa ser considerado. Crianças que nasceram com síndrome congênita do zika terão problemas de desenvolvimento de diferentes tipos e severidade, mas, em muitas locais, ainda não existe infraestrutura física ou humana para prover os cuidados necessários. É impossível conceber como responder à epidemia de zika sem considerar o contexto local.

FMC – Mas existem algumas iniciativas que dão certo…
MC – Sim. A Estratégia de Saúde da Família, por exemplo, contribuiu para a redução da mortalidade infantil. Ainda que não seja perfeita, essa estratégia leva atendimento básico a muitas áreas com famílias em situação de risco, e que até então tinham pouco ou nenhum acesso isso. O Estado do Ceará possui exemplos fantásticos de intervenções adaptadas á realidade local. A cidade de Sobral é um exemplo na implementação de programas de sucesso. Cada um desses programas foi desenvolvido a partir do diagnóstico de necessidades locais, feito por equipes multidisciplinares, sempre buscando o engajamento da comunidade. O Ceará apresentava um dos maiores índices de mortalidade infantil do País nos anos 80. Graças a iniciativas que, novamente, levaram em conta o contexto e as demandas locais, e que compuseram o programa Viva Criança, a mortalidade foi reduzida de forma significativa.

FMC – Mas se essa iniciativa deu certo, por que não a replicam, não a escalam a outros estados?
MC – Esta é uma questão complexa. Para escalar qualquer programa é fundamental que haja comprometimento e vontade política. Além disso, é preciso reconhecer que o programa, por mais bem-sucedido que tenha sido, precisa ser adaptado às demandas locais. Não basta replicar ações, é preciso replicar a estratégia de planejamento local integrado. Esse é um desafio mundial em várias áreas (saúde pública, educação etc.).

FMC – A municipalização dessas iniciativas pode favorecer a eficácia das intervenções?
MC – Sim. É possível adotar uma política pública estadual ou federal, ajustando-a a necessidades locais. Isso já acontece. Muitas cidades e estados vão além do que as políticas nacionais propõem. É o caso do programa de controle da malária, por exemplo. Em algumas áreas o uso de mosquiteiros faz parte do programa, em função das caraterísticas regionais da transmissão e do vetor. Mas essa não é uma estratégia usada em todas as áreas endêmicas para a essa doença. No caso da primeira infância, se os governantes locais não reconhecem a importância dos primeiros anos de vida como fundamentais na formação do indivíduo e, consequentemente, da sociedade, e se desconhecem a realidade das crianças de sua cidade, aquela intervenção, que chega de cima, não vai ter efeito no público-alvo.

Marcia Castro é Professora Associada de Demografia na Harvard T.H. Chan School of Public Health e membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). Lançou um esforço colaborativo para iniciar o primeiro estudo de coorte do nascimento desde o período pré-natal na Amazônia.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Você pode assistir ao VI Simpósio Internacional na íntegra, via internet, em tempo real, dias 7 e 8 de novembro. É só clicar aqui.

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