post_blog-2402

Entrevista – Investir na primeira infância não é “gasto”. É investir no País!

Doutora Ariela Luna Florez é médica e foi vice-ministra de Políticas e Avaliação Social do Ministério de Desenvolvimento e Inclusão Social e Diretora Geral de Promoção da Saúde do Ministério da Saúde do Peru. No VI Simpósio Internacional, ela falou sobre como muitos ministros focam, equivocadamente, em outras áreas, deixando a primeira infância em segundo plano. Nesta conversa conosco ela reforça essa ideia, trazendo novas discussões.

Fundação Maria Cecilia – No VI Simpósio Internacional, você citou que, geralmente, o ministro da economia e finanças acha que investir na primeira infância é “gasto”. Que essa causa concorre, por exemplo, com projetos de infraestrutura do país. Você pode enumerar dois ou três argumentos que, nesse diálogo, precisam ser destacados para ele mude seu olhar e valorize os primeiros anos de vida?
Ariela Luna Florez – A primeira infância não é uma prioridade natural para os governos, por diversas razões. Os ministros da fazenda, saúde e educação não têm informação suficiente sobre a importância dessa etapa para o desenvolvimento socioeconômico de um país, sobre as oportunidades perdidas ao não investir na primeira infância. Graças a contribuições de economistas como James Heckmann, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2000, ao demonstrar a importância da primeira infância, sabe-se agora que o melhor investimento para um país é nessa fase da vida.

Mas, para os políticos, a infraestrutura ainda tem mais visibilidade perante a população, enquanto os avanços na primeira infância não são tão perceptíveis.
É importante sensibilizar os ministros da fazenda de nossos países sobre a importância da primeira infância, fornecendo informações baseadas em evidências científicas.

FMC – Por que você acha que em alguns países, especialmente da América Latina, a primeira infância ainda não é prioridade, embora a ciência reforce, a cada estudo e pesquisa, que ela é essencial ao pleno desenvolvimento de uma nação?

ALF – Nossos países avançaram ao reconhecer a importância da primeira infância como uma prioridade, porém, essa constatação terá validade parcial enquanto não houver orçamento garantido.

Apesar das evidências científicas já produzidas sobre os primeiros anos de vida, as autoridades públicas que desconhecem a sua importância não têm essa clareza. É preciso implantar um amplo programa de conscientização de funcionários públicos em geral, que deverá ser liderado pelos ministros da Fazenda dos países, com ênfase nos responsáveis pelo orçamento público.

FMC – No Peru, a intersetorialidade das áreas de cuidado à gestante e criança foi se solidificando graças a uma prática de contrapartidas em que os municípios e estados que se dedicam mais a garantir melhores condições de desenvolvimento a crianças são contemplados com mais recursos. Você acredita, pela sua experiência, que esse sistema possa ser replicado no Brasil, que possui mais de cinco mil municípios de 26 estados, além do Distrito Federal?

ALF – O que fizemos no Peru foi, primeiro, definir um modelo lógico para a primeira infância, baseado em evidências. Depois, escolhemos as intervenções com maior custo benefício, com orçamento garantido e com base em resultados. Criamos também um sistema de incentivos multissetorial para aproximar o aparelho do estado à primeira infância. Qualquer país pode trilhar o mesmo caminho desde que tenha condições para tanto, como vontade política, técnica e orçamentária.

FMC – O sistema do seu país oferece contrapartidas, em recursos, a cidades e estados que garantam mais cobertura à primeira infância. E as famílias? Quais incentivos elas recebem para aderirem aos programas sociais?

ALF – As famílias precisam receber informações sobre as intervenções que poderão proporcionar um bom desenvolvimento aos seus filhos. Ao empoderar as mães e os cuidadores, estes poderão recorrer a tais intervenções nos serviços públicos, como vacinas, água potável e aconselhamento familiar para o desenvolvimento, dentre outros.

As famílias podem ser conscientizadas, mas, se o Estado não criar uma estrutura de entrega adequada à sua cultura, fornecendo o serviço a uma distância segura, elas não poderão acessá-los. Os órgãos públicos precisam desenvolver estratégias mais adequadas para atingir as famílias, respeitando a sua cultura, de forma gratuita, atuando em local próximo às suas casas. Programas de transferências condicionadas podem ajudar se, e somente se, os órgãos públicos forem capazes de oferecer serviços adequados.

Confira mais sobre este assunto assistindo à palestra da doutora Ariela no VI Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, realizado em 2016. Basta clicar aqui.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Leia mais

Entrevista – Educação Infantil é prioridade e deve ser tratada como tal

Por que alguns programas sociais não dão certo?

Confira a página Desenvolvimento Infantil, da FMCSV, no canal do Youtube. Acesse, assine o canal e compartilhe o que é preciso saber sobre a Primeira Infância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*