Entrevista: “Minha filha nasceu com prematuridade extrema. Hoje é uma criança feliz!”

A terapeuta infantil Teresa Ruas tem ajudado pais e profissionais a lidarem com o nascimento de crianças antes do tempo. No caso das famílias, ela afirma que vivenciar os primeiros e decisivos dias de vida dos filhos é muito difícil. No entanto, o apoio da equipe da UTI neonatal e de outros pais é o principal recurso terapêutico para superar o problema.

Fundação Maria Cecília – Teresa, você tem uma história de resiliência incrível. Conte pra gente como foi sua trajetória até lançar o livro sobre prematuridade.
Teresa Ruas – Sou terapeuta infantil e sempre trabalhei com crianças expostas à vulnerabilidade social ou com fatores de risco biológicos. Nesse percurso, apareciam muitas crianças que tiveram nascimento prematuro, por causa do alcoolismo ou uso de drogas pelos pais, gestação na adolescência e outros causadores do problema. Esse tema me acompanhou por muito tempo. Fiz mestrado e doutorado na área da primeira infância, com foco na prematuridade. Depois disso, fiquei grávida e na 18ª semana eu entrei em trabalho de parto, por conta de uma infecção bacteriana no útero, conhecida como coriomielite. Fique internada no hospital até completar a 23ª semana, quando minha filha, hoje com três anos, nasceu, com prematuridade extrema, que é o limite entre a vida e a morte. Ela ficou seis meses na UTI neonatal. Saiu de lá e até dois anos de idade não podia ter contato com outras crianças. Só depois dos três anos foi liberada para frequentar a escola.

Teresa Ruas

Teresa Ruas

FMC – Então você teve de mudar toda a sua rotina…
TR – Sim. Eu abandonei os estudos que fazia antes disso tudo acontecer, deixei meu consultório e me dediquei a ela totalmente, com meu marido. Mas nossa jornada não parou aí. Quase três anos depois, eu tive um filho que também nasceu antes do tempo, por conta das sequelas que ficaram do problema no útero, mas desta vez na 32ª semana, o que é tido como prematuridade intermediária.

FM – Você pode explicar um pouco mais sobre os tipos de prematuridade que citou, a extrema e a intermediária?
TR – Na prematuridade extrema, que envolve nascimentos entre a 22ª/23ª e 31ª semana (cerca de cinco a seis meses de gestação), nada está plenamente formado. Os sistemas respiratório, cardíaco, gastrointestinal não amadureceram o suficiente para o bebê sobreviver fora do útero. O pulmão, por exemplo, é como uma “carcaça vazia”, ainda sem as suas células desenvolvidas. Totalmente imaturo. Por isso a criança fica entre a vida e a morte. Vai depender dos cuidados, da tecnologia que a cerca e, especialmente, da resiliência dela para que sobreviva, com ou sem sequelas. Ou seja, todo o dia o bebê enfrenta essa dicotomia entre morrer ou viver. No caso de minha filha, felizmente, ela só apresenta o que é mais comum nesses casos, que são os problemas respiratórios, como a displasia pulmonar. A prematuridade intermediária é mais leve. Vários órgãos já estão mais desenvolvidos e as chances de sobrevivência aumentam consideravelmente. Geralmente os bebês ficam por um tempo na UTI neonatal para minimizar possíveis desconfortos respiratórios e ganhar peso. Neste caso, também pode haver complicação, mas a incidência é bem menor do que na prematuridade extrema.

FMC – Como essas experiências te levaram a escrever um livro sobre o tema?
TR – No tempo em que fiquei com minha filha na UTI neonatal, e pelas experiências que ouvi de outras pessoas que passaram pela mesma situação, quando eu clinicava, percebi que as famílias precisavam de muito apoio para superar essa etapa. Eu estabeleci uma relação de vínculo e afeto com a equipe de profissionais da UTI e com outras mães que estavam lá. É muita dor, muita angústia. Não é só a vida de seu filho que está correndo risco, mas de outras crianças que você vê ali, todos os dias, e, muitas vezes, não as vê mais. O ambiente é pesado. Sem esse vínculo, sem o acolhimento da equipe, a gente não dá conta e enlouquece. Por isso, decidi fazer o livro “Prematuridade extrema: olhares e experiências”, lançado pela editora Manolle, depois de conversar com os profissionais do Hospital Albert Einsten, onde minha filha ficou internada, e da Unicamp.

FMC – O que essa publicação traz de diferente de outras que falam do assunto?
TR – Era preciso falar da prematuridade de uma forma mais tangível aos pais e, especialmente, aos profissionais. Eu escrevi o texto sob o ponto de vista de uma mãe que viveu o problema e como terapeuta. Os profissionais deram seus depoimentos com base na visão da Ciência. Procurei passar no livro a importância desse acolhimento, do vínculo entre os pais e a equipe. Faz diferença o enfermeiro perceber que você está arrasada e te abraçar para dizer que o bebê passou bem à noite. Ou mesmo o médico ser objetivo e contar a verdade, no lugar de responder suas perguntas ansiosas com respostas técnicas que não fazem sentido pra você. A equipe de enfermagem acaba virando sua família, assim como os outros pais.

FMC – Você e seu marido fazem palestras e dão apoios a pais na mesma situação?
TR – Sim. Depois de toda essa experiência, estamos à disposição do Hospital Albert Einsten para falar com pais que vivenciam a prematuridade de seus filhos. Nos grupos de acolhimento que coordenamos, sempre colocamos essa questão da importância do vínculo com a equipe médica e outras famílias para ter forças e enfrentar o dia a dia. Esse é o principal recurso terapêutico para superar o problema. Também acabei me envolvendo com o projeto “Temos que Falar Sobre Isso”, que acolhe gestantes e mães de crianças na primeira infância. Foi um espaço importante e qualificado que encontrei para compartilhar minhas experiências com a prematuridade.

FMC – Qual a principal mensagem que você quer deixar aqui para pais que vivem a prematuridade de seus filhos?
TR – O prematuro é muito instável, mas ele pode conseguir a maturidade. Acreditem nisso! É preciso respeitar o seu tempo e ritmo. Não só os pais têm de exercitar essa espera, mas, principalmente, os profissionais, que muitas vezes ficam angustiados com as não respostas aos marcos do desenvolvimento infantil. No caso dos prematuros, eles acontecem em tempos diferentes. Se não tiverem a paciência necessária, correm o risco de fazer diagnósticos equivocados. Ao mesmo tempo, o acompanhamento cuidadoso dessas crianças é essencial, porque elas têm mais chances de apresentar algum tipo de atraso. E todas, por estarem tanto tempo nesse ambiente de hospital, necessitam de muito afeto e vínculo para se sentirem mais seguras a enfrentar os desafios lá fora.

Teresa Ruas usou a própria vivência para apoiar outros pais. Você conhece pessoas que fizeram o mesmo e que hoje são referências sobre temas importantes ao desenvolvimento infantil? Conte aqui pra gente.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

Leia mais

Pesquisadores detectam se gestantes correm risco de parto prematuro

Por que o bebê nasce prematuro?

 

Confira a página Desenvolvimento Infantil, da FMCSV, no canal do Youtube. Acesse, assine o canal e compartilhe  o que é preciso saber sobre a Primeira Infância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*