Entrevista – Não é fácil dizer ‘não’ a guloseimas. Mas é preciso

Conversamos com Daniel J. Hoffman, professor e PhD do Departamento de Ciências da Nutrição da Universidade Estadual de Nova Jersey, sobre o que é uma alimentação saudável na infância, de que forma ela repercute na vida adulta, como dizer não a guloseimas pedidas pelos pequenos, por que alguns pais não percebem que seus filhos estão muito acima do peso, dentre outros temas importantes para um bom desenvolvimento nutricional e infantil. 

Fundação Maria Cecilia – A obesidade infantil virou problema de saúde pública no mundo. No Brasil não é diferente. Quais aspectos você considera responsáveis por essa falta de controle?
Daniel Hoffman – Há um número de fatores que contribui para o recente aumento da obesidade infantil. Entre eles está simplesmente a baixa prática de atividade física e o alto consumo energético que criam um “equilíbrio de energia positiva”. Por exemplo, muitas escolas têm reduzido ou eliminado a quantidade de tempo que uma criança pode brincar durante o dia. Além disso, alguns pais levam seus filhos para escola de carro quando poderiam facilmente levá-los a pé em uma caminhada de 10 ou 20 minutos. Há também o problema de as crianças passarem mais tempo jogando jogos eletrônicos o que reduz seu envolvimento com atividades físicas. Quando essas situações se combinam com o fácil acesso e consumo exagerado de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal, isso cria um equilíbrio positivo de energia e com o tempo leva ao desenvolvimento da obesidade.

FMC – Como a publicidade influencia a criança na escolha do que quer comer, a ponto de pedir aos pais que comprem determinado alimento?
DH – O relacionamento entre a propaganda alimentar e o que os pais compram para seus filhos é muito complicado. Quando você vai a um supermercado vê que esse tipo de estabelecimento coloca os cereais ricos em açúcar nas prateleiras mais baixas comparado aos cereais “mais saudáveis” que são colocados nas prateleiras mais altas. As crianças não apenas veem esses cereais com alto nível de açúcar como podem pegá-los e colocá-los no carrinho. Há também um grande incentivo por parte da indústria alimentícia em criar alimentos que são direcionados a crianças, como iogurtes com mais açúcar, sanduíches industrializados e lanches que são vendidos com brinquedos. Todos são desenvolvidos para aumentar o desejo nas crianças que vão pedir cada vez mais para seus pais esses produtos criando uma tensão entre eles. É nesse momento que os pais têm de exercitar sua responsabilidade e explicar como esse tipo de alimento pode ou não se encaixar num estilo de vida saudável e que não faz parte de suas dietas diárias.

FMC – Por que tantos pais não conseguem dizer ‘não’ aos desejos de consumo de doces e outros alimentos inadequados à criança?
DH – Primeiramente, eu também sou pai e sei como é ter um filho que começa a chorar quando você diz a ele que não vai comprar um lanche ou comida que ele quer. No entanto, levando em conta que os pais têm enfrentado uma campanha de marketing bem agressiva das empresas alimentícias, de bebidas e de fast food, é importante que sejam consistentes e justos com seus filhos. Acredito que, no fim, todas as crianças vão comer besteiras, então não é necessário dizer “nunca”. É mais importante passar uma mensagem bem embasada de que “esses alimentos não são saudáveis e que eles não podem comê-los todos os dias ou todas as vezes que eles sentem vontade”. Dizer é difícil e normalmente acaba em choro, mas com uma mensagem consistente a criança aprende que táticas de birra não são recompensadas e que às vezes ela vai receber esses alimentos não tão saudáveis como um agrado, mas na maior parte do tempo não é uma coisa que vai conseguir só porque pediu.

FMC – Você poderia citar cinco alimentos obrigatórios na alimentação de crianças na primeira infância (até seis anos) e cinco que não devem ser consumidos nessa etapa da vida?
DH – Os cinco alimentos mais importantes que os pais deveriam dar para seus filhos pequenos são frutas, vegetais, laticínios, proteína de alta qualidade e grãos ou arroz. Esses são os alimentos que fornecem os micronutrientes, nutrientes e calorias que vão proporcionar um bom crescimento e desenvolvimento. As fibras favorecem um sistema gastrointestinal saudável e saciedade para evitar o excesso de consumo de calorias. Posso definitivamente dizer que os alimentos que não devem ser dados para crianças com menos de seis anos são bebidas e sucos adocicados e alimentos altamente processados, porque não contribuem com nenhum tipo de nutrientes que ajuda no crescimento. Vale lembrar que calorias líquidas são as mais consumidas e contribuem para a obesidade.

FMC – Como a escola de educação infantil pode colaborar para formar hábitos alimentares saudáveis na criança pequena?
DH – Há muitas formas das escolas ajudarem as crianças a formarem o que chamamos de “cultura da saúde”. Esse conceito deve envolver as crianças, os pais, as escolas, a comunidade, sendo estendido para a cultura que essas crianças vivem. Escolas podem desenvolver um papel importante na formação da cultura da saúde fornecendo apenas alimentos que contêm baixos níveis de açúcar, ricos em nutrientes e minimamente processados. É também importante apresentar uma variedade de alimentos para as crianças e também permitir que elas tenham tempo de brincar e usar energia, um fator que não apenas previne a obesidade, mas também melhora a atenção e o aprendizado.

FMC – Vemos casos de crianças obesas, mas que os pais parecem não admitir. Você tem alguma explicação para isso?
DH – Ser um pai ou uma mãe não é fácil. É ainda mais difícil ser o pai ou a mãe de uma criança com problemas de peso, já que as pessoas tendem a julgar a criança e os pais de forma muito injusta. Então, entre pais de uma criança acima do peso ou obesa há certa negação envolvida quando eles não admitem que seu filho tem um problema. E talvez esses pais também não consigam encontrar soluções simples e têm medo de ir ao médico porque temem ser julgados. Porém, o que pode ser ainda mais difícil para pais de filhos acima do peso é admitir que há um problema quando geralmente esse tipo de criança parece estar com um peso relativamente normal, quando na verdade elas não estão. Sem consultar um pediatra que possa confirmar seu peso adequado, muitas crianças acima do peso são chamadas de “grandes”, “fortes”, que têm “ossos grandes” ou coisas do tipo.

FMC – Você pode citar algumas consequências na vida adulta da alimentação incorreta nos primeiros anos da criança?
DH – Uma dieta pobre na infância tem muitas consequências importantes no longo prazo que persistem até a fase adulta. Em casos extremos, uma nutrição pobre pode resultar em casos de baixa estatura dificilmente reversíveis e também na obesidade e baixas habilidades cognitivas. Até falta moderada de micronutrientes pode levar a uma má nutrição, causando problemas permanentes de crescimento, de visão e, talvez, até algumas formas de câncer na fase adulta. O mais importante é que os pais saibam que alimentos que as crianças veem como normal, geralmente são os que comporão sua dieta para vida toda. Por isso é importante introduzir alimentos integrais e nutritivos o quanto antes, para que essas crianças passem a ter uma dieta saudável também na fase adulta, o que lhes proporcionará saúde e a diminuição do risco de contraírem muitas doenças.

FMC – Crianças, muitas vezes, não gostam de legumes, verduras e frutas. Por que isso acontece e quais dicas você pode dar aos pais para driblar essa recusa?
DH – É muito comum as crianças não gostarem do sabor dos legumes, vegetais e frutas. Esses alimentos podem até não ser tão agradáveis por não terem sabor ou por serem amargos, porém, os pais precisam saber que as crianças começam a desenvolver seu paladar durante a gestação até a adolescência. Isso significa que novos alimentos devem ser apresentados e fornecidos de forma constante para que as crianças comecem a apreciar os sabores mais sutis. Isso pode não ser fácil, já que acontece de uma criança rejeitar um alimento por semanas e, de repente, começar a gostar daquilo. Ou, ainda, gosta de um alimento por semanas e, sem mais nem menos, passa a rejeitá-lo. Esses padrões são normais e quando os pais forçam um alimento a criança tende a evitá-lo. Da mesma forma, se os pais se preocupam com o fato de seus filhos não estarem comendo o suficiente e oferecem besteiras e alimentos que são mais fáceis de gostarem, as crianças vão perder a oportunidade de desenvolver um gosto por alimentos saudáveis e começar a apreciar apenas alimentos ricos em gordura, sal e açúcar.

FMC – Por que muitas crianças que estão acima do peso também apresentam desnutrição?
DH – Para responder essa questão é importante lembrar que uma criança está acima do peso por conta de um “equilíbrio de energia positiva” e do excesso de energia que está armazenado como gordura. No entanto, para explicar porque crianças acima do peso também podem estar “malnutridas”, no sentido de não estarem nutridas apropriadamente, devemos considerar que comer calorias não significa que essas calorias contribuam a uma dieta saudável. Muitas crianças acima do peso comem muitas calorias de alimentos que são basicamente carboidratos e gordura com pouco ou quase nenhum valor nutritivo. Então, com o tempo, elas ficam acima do peso, mas deficientes de micronutrientes, o que significa que estão “malnutridas”.

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Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia.

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