Entrevista – O papel das famílias acolhedoras no desenvolvimento infantil

Jane Valente é assistente social e autora do livro “Família Acolhedora”, fruto de sua tese de doutorado. Nesta entrevista, ela fala sobre como a iniciativa pode ajudar a oferecer espaços de cuidado, vínculo e afeto à criança que está afastada de sua família de origem, até que retorne a ela, seja adotada ou, ainda, permaneça em uma instituição. Saiba mais.

Fundação Maria Cecilia – Você é autora do livro “Família Acolhedora”, resultado de sua tese de Doutorado, apresentada na PUC de São Paulo, em 2013. Conte-nos mais a respeito.
Jane Valente – Fiz esse trabalho com base em estudos sobre esse serviço da assistência social, criado em 1997, com o nome de Sapeca (Serviço de Acolhimento e Proteção Especial à Criança e ao Adolescente). É uma proposta inovadora que veio responder à necessidade de mudar a forma de acolher crianças dos abrigos municipais, vítimas de violência e abusos em seus lares de origem. Quando fiz minha tese, falar de famílias acolhedoras era um grande desafio porque as pessoas, em geral, tinham pouca clareza a respeito. Muitas se perguntavam como era possível cuidar de uma criança por algum tempo, dar-lhe todo carinho, e depois entregá-la à sua família biológica ou aos cuidados do Estado. 

Fundação – O que é preciso para ser uma família acolhedora?
JV – O responsável pela criança deve ser maior de 21 anos, sem problemas graves de saúde, com bons antecedentes, não usar drogas ilícitas, morar no município da criança, ter disponibilidade para participar de reuniões quinzenais, aceitar receber visitas da assistente social. Além disso, as famílias que se candidatam passam por entrevistas e avaliações. A contrapartida é o recebimento de uma bolsa auxílio, correspondente a um salário mínimo, para as despesas com a criança acolhida e o apoio da equipe de profissionais.

Fundação – Com relação às crianças, como elas veem essa vivência em outras famílias.
JV – A oportunidade de conviver com outras realidades, de sentir o afeto e o cuidado, acaba por fortalecer o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes que passam pelo serviço. Muitas vezes o sistema judiciário coloca a criança em uma instituição, onde, por melhor que seja o tratamento, ela não cria vínculos familiares, que são essenciais para ela.

Fundação – Quais outros benefícios você vê para a criança que participa do projeto?
JV – Além dos vínculos e interações que cria com a família acolhedora, importantes para seu desenvolvimento, a criança não é estigmatizada nessa situação. Aquela que está em uma instituição acaba sendo vista de maneira diferente pela sociedade. Ela vai a consultas médicas com o carro da instituição, por exemplo. Frequenta alguns lugares públicos acompanhada de seus pares, ou seja, mesmo sendo vítima de uma situação, ela acaba recebida com certa reserva pela sociedade. Muitas vezes os espaços institucionais protetivos não são tão protetivos assim. É bem diferente de viver em uma família acolhedora.

Fundação – A família de origem tem contato com a família acolhedora?
JV – Não, necessariamente. Todo o trabalho de reinserção da criança na família de origem é feito pela equipe de profissionais do serviço. Os encontros dela com a criança acontecem na sede do serviço. Só terão contato entre as famílias caso seja do interesse de ambas.

Fundação – Como as famílias de origem das crianças veem esse trabalho?
JV – Vale ressaltar que as ações do serviço têm como objetivo preparar essa família para receber novamente a criança. Só quando isso se torna impossível é que se busca a adoção. De qualquer forma, a família de origem muitas vezes tem conceitos distorcidos sobre seus direitos. Acaba por achar que a família acolhedora adotou a criança, o que não é verdade. Também, por influência de um modelo antigo de assistência, acha que até os 18 anos seu filho ou filha ficará sob a responsabilidade dessa família ou do Estado, afastando-se do convívio com a criança. Na verdade, o tempo médio para essa reinserção da criança no seu meio de origem é de até dois anos. Quando essas questões são esclarecidas, os pais ou familiares biológicos são tomados por um sentimento de gratidão porque percebem, nas visitas que fazem à criança, que ela está bem cuidada, que continua se desenvolvendo, que a família acolhedora cuida de seu bem-estar. Acabam aprendendo com todo o processo em que se encontram envolvidos, principalmente pela inserção em uma rede de proteção social, que é possível cuidar de novo de seus filhos, com afeto e proteção.

Fundação – Na sua opinião, em dois anos é possível trabalhar esse retorno à família de origem?
JV – É um tempo razoável para realizar um trabalho intenso, mas nem sempre dá certo. Às vezes não é questão do tempo em si, mas da realidade daquela família. Acredito que seja importante pensar em políticas públicas de acolhimento familiar que amplie esse período, antes de decidir pela adoção. Percebi, na minha pesquisa, que as crianças que ficavam mais tempo nas famílias colhedoras apresentavam índices de desenvolvimento maiores, como o da linguagem. Também estavam mais empoderadas sobre sua história. É um serviço que leva tempo para criar a confiança da criança na família acolhedora, para que ela se abra e se sinta parte, justamente porque existe uma fidelidade biológica a suas famílias de origem, mesmo quando estas eram negligentes de alguma forma. Os laços sanguíneos são muito fortes e é preciso cuidar muito bem dessa criança para que ela possa se abrir e falar de si e dessa relação conturbada que vivenciou com seus familiares. Por isso, o tempo é imprescindível.

Fundação – Para fazer o livro, como foi a sua conversa com os profissionais que atuam no programa?
JV – Eu deixei para falar com eles por último. São psicólogos e assistentes sociais. Percebi que as sensações deles estavam equilibradas e na mesma sintonia do que ouvi das famílias, tanto as de origem como as acolhedoras, assim como as impressões expressadas pelas crianças. O que se percebe é que o serviço precisa ser bem cuidado, sem perder seu caráter artesanal, para que a qualidade seja mantida. Também é importante que mobilizem as famílias e a criança para que acessem os aparelhos públicos que estão a serviço de seu bem-estar.

Fundação – Como a ideia ganhou força e se mantém há 20 anos?
JV – Quando o Sapeca foi pensado, nos anos 90, fomos atrás de subsídios para fortalecê-lo. Nos baseamos em experiências fora do País, como as que existiam na Argentina, Itália e na França, que respaldaram a formatação da proposta brasileira. Passamos a fazer parte de um grupo nacional para criar diretrizes sobre o acolhimento familiar e institucional em 2009. A repercussão levou a uma adequação do artigo 90, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que incluiu esse serviço como uma das possibilidades a ser ofertada à criança.

Fundação – Então, a proposta saiu de Campinas (SP), onde o Sapeca acontece, e se espalhou pelo Brasil?
JV – Posso dizer que contribuiu muito para a construção da política nacional e tem contribuído ainda na disseminação da experiência e construção de novos serviços no Brasil e fora dele. Hoje o serviço de acolhimento em família acolhedora é uma política pública.

Para saber mais sobre este serviço, clique aqui. O livro de Jane Valente, “Família Acolhedora – As relações de cuidado e de proteção no serviço de acolhimentos”, é uma publicação da editora Paulus.

Janete Aparecida Giorgetti Valente (Jane Valente) é assistente social, especialista em violência doméstica contra a criança e o adolescente, formada em atendimento a casal e família pela psiquiatria médica da Unicamp, mestre e doutora em Serviço Social pela PUC-SP, consultora da Rede Latino-americana de Acolhimento Familiar (Relaf). Secretária Municipal de Assistência Social e Segurança Alimentar da Prefeitura de Campinas desde 2013.

As opiniões emitidas pela entrevistada são de sua inteira responsabilidade e não necessariamente representam a opinião da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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Comments

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  1. avatar

    Parabéns a Jane Valente pelo seu incansável trabalho em prol do bem estar das crianças, ficamos muito honrado hoje em fazer parte do Programa de acolhimento familiar e viver experiências tão emocionantes, graças a este seu trabalho. Parabéns também a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e seus colaboradores por esta entrevista. Estamos hoje tão carentes de boas notícias e de entrevistas inteligentes com pessoas especiais. Parabéns mais uma vez a todos.

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      Obrigada, Ana e Luiz. Muito bom saber que vocês estão atuando para que crianças possam vivenciar vínculos e afetos positivos que contribuam ao seu desenvolvimento, mesmo em momentos complexos de suas vidas. Grato abraço.

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