Entrevista: O que a creche deve garantir para oferecer educação de qualidade?

Nesta conversa, Beatriz Ferraz, gerente de educação infantil da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, fala sobre os desafios da creche e pré-escola para garantir a toda criança um serviço de qualidade, dando algumas dicas de como isso pode acontecer.

Fundação Maria Cecilia  – A educação infantil é realmente um direito? Quando isso foi estabelecido?
Beatriz Ferraz – A educação infantil conquistou um cunho legal quando ficou expresso na Constituição Brasileira o direito à educação, por meio do atendimento em creches e pré-escolas. Com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9.394 de 1996), essa fase do ensino foi inserida, definitivamente, no capítulo educacional brasileiro, configurando-se como a primeira etapa da educação básica, saindo do guarda-chuva da Assistência Social.

Desde então, o acesso à creche e à pré-escola vem, sucessivamente, sendo ampliado. Só entre 2008 e 2014, as matrículas em creche tiveram aumento de 65,1% (MEC/Inep) e o Plano Nacional de Educação (PNE/2014) determinou a todos os municípios a meta de universalizar, até 2016, o atendimento de pré-escola. É preciso, porém, atentar para o fato de que o desafio da qualidade frente à ampliação de matrícula tem sido um elemento fundamental para a validade da política atual.

Fundação – Você acha que estamos longe de garantir essa qualidade?
BF – Pesquisas recentes têm mostrado que a qualidade do nosso atendimento, principalmente em creches, está baixa. Para agravar a situação, tais pesquisas também evidenciam que creches de baixa qualidade impactam o desenvolvimento infantil de forma prejudicial. Sabemos que o atendimento em creche tem um potencial transformador na vida de famílias e crianças em condições de alta vulnerabilidade, podendo, se garantida a qualidade, favorecer o potencial dessa criança para que alcance seu desenvolvimento pleno na primeira infância. Além disso, os impactos positivos desse segmento trazem resultados no curto, médio e longo prazo na formação de um cidadão e no exercício pleno de sua cidadania.

Fundação – Quais fatores contribuem para essa qualidade da educação infantil?
BF – Segundo o estudo Impacto do Desenvolvimento na Primeira Infância sobre a Aprendizagem, realizado pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), pesquisas evidenciam que essa qualidade pode ser conferida por uma série de fatores, dentre eles:

– Profissionais com bom nível de formação, atentos e responsivos às necessidades das crianças e engajados em promover o desenvolvimento pleno.
– Turmas pequenas com número reduzido de crianças por educadores.
– Currículo adequado à faixa etária com atividades e programa pedagógico bem estruturados.
– Ambiente estimulante e voltado para a participação ativa da criança.
– Infraestrutura segura.
– Rotinas de higiene e cuidado pessoal.
– Modelo de atendimento associado a atividades para apoiar e orientar os pais.

Fundação – O que a proposta educativa da creche tem de considerar para garantir essa qualidade?
BF – A proposta educativa da creche, com as ações pedagógicas nela envolvida, precisa priorizar as necessidades dos bebês e crianças, considerando os princípios fundamentais para a garantia de um ambiente suficientemente bom, entre eles a previsibilidade, a regularidade e a confiança. Esses princípios, presentes em todas as ações da creche, favorecem aos pequenos o sentimento de segurança, necessário à sua sobrevivência e ao amadurecimento saudável. Nesse contexto, a organização do tempo, do espaço e o estabelecimento de relações sociais são elementos fundamentais de serem considerados na proposta educacional.

Fundação – Como concretizar previsibilidade, regularidade e confiança no cotidiano de bebês e crianças?
BF – A previsibilidade e a flexibilidade são princípios fundamentais a serem considerados na organização da rotina dos pequenos na creche. A previsibilidade deve estar presente na forma organizada e consistente do tempo que considera que o dia da criança ocorre em torno de acontecimentos diários regulares. A flexibilidade implica, por sua vez, considerar que é preciso se acomodar às necessidades das crianças, compreendendo, por exemplo, que a rotina de cuidados pode estar intercalada com os demais acontecimentos do dia.
Gosto da proposta de rotina do modelo educacional de High Scope, no livro Educação de bebês em Infantários (2004, Hohmann e Post). Eu a estudei para minha tese de doutorado e fiz observações a respeito.

Entrada/saída: receber e despedir-se das crianças individualmente, mesmo que brevemente; reconhecer sentimentos das crianças e dos pais no momento da separação e encontro; respeitar os “rituais” de cada criança; respeitar o ritmo da cada criança para se despedir; comunicar pais e crianças sobre chegadas e partidas; trocar informações com os pais; apresentar o espaço e a equipe de educadores aos pais e crianças.
Refeições (almoço, lanche, suco): segurar os bebês que ainda mamam no colo e estar atenta a eles; valorizar as iniciativas das crianças de comerem sozinhas (participação progressiva); sentar-se junto às crianças na mesa para comer; incorporar o caráter cultural e de relação social que as refeições têm em nosso contexto; criar ambientes tranquilos, relaxantes, estáveis e contextos comunicativos e de diálogo entre crianças e educadoras; respeitar os ritmos e as preferências das crianças; respeitar os horários; adequação do espaço e mobiliários; apresentar a comida de forma atraente; envolver as crianças na tarefa de pôr e tirar a mesa; trocar informações com as famílias.
Cuidados pessoais: integrar os cuidados corporais na exploração e brincadeira das crianças; centrar-se em cada criança durante a rotina de cuidados; proporcionar à criança algumas escolhas; encorajá-la a fazer coisas sozinhas ou participar ativamente destas situações; favorecer o estabelecimento de uma relação de confiança e segurança entre educadora e criança; considerar o desfralde um processo de aprendizagem; favorecer a construção de hábitos de higiene; incentivar as crianças a cuidarem de seus pertences pessoais.
Sono/descanso: respeitar as necessidades de descanso de cada criança, mesmo que haja um horário comum para tal; ajudar as crianças a se acalmarem para dormir; proporcionar alternativas sossegadas para as crianças que não dormem; respeitar as diferentes formas e ritmos de despertar das crianças; respeitar as diferenças entre as crianças para adormecer; organizar o espaço de forma confortável e aconchegante; ajudar as crianças a aprenderem a dormir sozinhas; convidá-las a fazer pequenas ações de forma autônoma.
Atividade de livre escolha: estar atento às crianças enquanto exploram e brincam, observá-las; ajustar as ações do educador às ideias e indicações das crianças; brincar junto; ampliar suas ações com os materiais; comunicar-se com as crianças; apoiar e estimular as interações entre as crianças; resolver os conflitos que surgirem entre as crianças sem atribuir juízo de valor às suas ações; estimular as crianças a participarem da arrumação do espaço; ajudá-las a fazer escolhas; favorecer relações entre coisas que já fizeram e que podem fazer; arrumar o espaço de forma organizada e convidativa; diversificar as propostas; garantir propostas diferentes: livros, blocos para empilhar, potes de tamanhos variados, jogos com portas de abrir e fechar, jogo simbólico (bonecas, banheiras, paninhos, panelinhas etc.), móbiles, cabanas, mordedores, caixas de papelão, jogos de encaixe, garrafas com líquido colorido, tapetes ou painéis, materiais que convidem ao movimento, bolas pequenas, animais ou carrinhos com rodinhas, espelhos etc.
Atividade em área externa: proporcionar materiais diversos para as brincadeiras e explorações das crianças (areia com potes de tamanhos variados e pás, bolas grandes ou pequenas, chuva de bolinhas, bambolês, material para fazer bolinhas de sabão, giz de lousa para desenhar no chão, motocas, percursos, correr, pular, escorregador, gira-gira e balanço pequenos, água, jogos simples de pegar ou esconder etc. – alguns dos materiais propostos na livre escolha também podem ser levados para a área externa); observar a natureza (animais e plantas); estimular as crianças a participarem da arrumação do espaço.
Atividade de grupo: proporcionar experiências que as crianças participem ativamente e sejam significativas; escolher materiais adequados; fazer comentários sobre o que as crianças fazem; interpretar as ações e comunicações das crianças; estar atenta às crianças para saber a hora de encerrar; proporcionar experiências variadas: música (instrumentos, cantar, dançar, ouvir,…); movimento (percursos, jogos corporais, brincadeiras de roda…); exploração do meio físico e natural (melecas, tinta – variar cores, espessuras, posições, coletivas ou individuais, materiais – massinha, receitas, cuidar da horta ou algum bicho de estimação da escola, brincar com água e potes de diferentes tamanhos…); apresentação de novos jogos, brinquedos/brincadeiras e materiais; rodas de conversa (compartilhar a rotina, ver quem veio e quem faltou, olhar fotos das crianças…); convidar familiares para ensinar algo ao grupo, ler ou contar histórias.

Com estas informações, vale a reflexão sobre quais ações são necessárias para que a creche ou pré-escola onde você atua, ou onde seus filhos estudam, precisa garantir para que a qualidade seja uma realidade todos os dias.

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Comments

1
  1. avatar

    Muito lindo na teoria, mas na prática deixa muito a desejar. Trabalho em creche há muitos anos e além da estrutura física não favorecer em nada essa prática, trabalhamos em número insuficiente de monitores 2 para 18 numa faixa de idade de 1-2anos; precisa dizer mais??

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