Entrevista – Parto humanizado: a mulher como protagonista do nascimento de seu filho

Luciana Benatti é jornalista e defensora do parto normal, que vivenciou por duas vezes. Já na primeira vez, ela sentiu necessidade de compartilhar com outras mulheres o que descobriu e, para isso, escreveu um livro onde reúne outros relatos, ilustrados com fotos e depoimentos inspiradores.

Fundação Maria Cecilia – Você é jornalista, seu marido, Marcelo Min, é fotógrafo e, juntos, publicaram o livro “Parto com Amor”, pela editora Panda Books. Qual o objetivo desse projeto?

Luciana Benatti – Tudo partiu de minha experiência. Eu engravidei a primeira vez com 30 anos e achava que não tinha muito mais o que saber a respeito. Ia ao médico, pesava, ele dava algumas recomendações, eu ouvia… Acabei descontente com isso, porque praticamente não falávamos do parto e das minhas questões emocionais, temas importantes para mim. Quando eu começava a tocar no assunto, ele me dizia que estava muito ansiosa. Um dia, encontrei uma amiga que já era mãe. Ela me perguntou qual tipo de parto eu tinha escolhido. Respondi que queria o normal. Então, ela questionou se eu já havia definido com meu médico. Achei estranho, porque, para mim, não tinha o que discutir. Era a minha escolha. Foi quando a minha amiga me deu a real, dizendo que, no Brasil, o parto normal não era o mais comum. Que era difícil conseguir que os médicos o realizassem. Fiquei com uma pulga atrás da orelha. Já estava no final da gestação, mas resolvi investigar. Em um mês, aprendi muito. Mudei tudo, inclusive o médico. Decidi que teria meu filho por meio do parto natural, no hospital. E ele acabou nascendo na água, o que era uma possibilidade, mas que eu jamais imaginei que fosse acontecer.

Capa do livro lançado por Luciana, "Parto com Amor"

Capa do livro lançado por Luciana e seu marido, “Parto com Amor”

FMC – Aliás, é a foto da sua experiência que abre o livro.

LB – Sim. Como meu marido é fotógrafo, ele clicou o antes, o durante e o depois do parto. Quando vi as fotos, no dia seguinte, fiquei encantada, porque foi um parto bonito. Estamos acostumados a ver imagens de sofrimento e dor associadas a ele, como se fosse um problema de saúde. Quando é possível fazer o parto natural, para gestantes sem complicações, é algo belo e familiar. Percebi que, embora eu me considerasse bem informada, na verdade, não sabia nada. Saímos da maternidade com a ideia de fazer o livro.

FMC – Como você reuniu as outras experiências, de várias famílias, retratadas na publicação?

LB – Por conta da minha vivência, das fotos, fomos chamados para fotografar outros partos. Eu ia à casa das gestantes, conversava com elas, levava o meu bebê junto. Escolhi oito depoimentos com fotos de partos normais, além do meu. A assistência humanizada era e ainda mais frequente na rede particular, por isso, as experiências que compartilho são em hospitais privados e na casa das gestantes (partos domiciliares planejados). Há um apenas que aconteceu na Casa de Parto de Sapopemba, do sistema público.

FMC – Quais contribuições você acha que o livro tem trazido ao tema?

LB – Lançamos o livro no momento em que a humanização do parto começava a ser mais discutida no Brasil, em 2011. A publicação passou a ser indicada em grupos de apoio a mulheres grávidas e suas famílias. Quando tive meu filho, em 2007, esses grupos quase não existiam. Eu mesma conhecia apenas um. Felizmente eles estão crescendo. No final de cada capítulo, enumero perguntas e respostas básicas relacionadas ao parto ali relatado. Dúvidas que surgem sobre dor, como parir na água, em casa, no hospital, sem anestesia… Informações técnicas explicadas de maneira simples e didática. Também sei que alguns profissionais que atuam com o parto humanizado têm usado o livro para conversar com as gestantes e mostrar de que forma os partos acontecem. Por exemplo, sobre a posição em que a mulher quer ficar na hora de parir, que deve ser uma escolha dela, do jeito que a deixa mais confortável. Soube de médicos que praticavam uma assistência mais convencional e usaram o livro para ter um primeiro contato com o tema. Alguns pré-julgam, mas, ao virarem as páginas, vendo as fotos, percebem que é um tipo de assistência não apenas possível, mas com respaldo científico. Muitas vezes durante a faculdade eles acabam rompendo com práticas mais naturais para seguir o modelo dominante, praticamente imposto pela academia.

FMC – Como a dor, que tantas mulheres temem, se dá no parto natural?

LB – O parto humanizado acontece, muitas vezes, sem anestesia. Claro que dói. O do meu primeiro filho doeu. O interessante é que, embora eu tenha essa consciência, não tenho essa memória. Acho que o mais difícil, na verdade, é lidar com o desconhecido. Nós perdemos o contato com o parir. No passado, os irmãos mais velhos assistiam ao nascimento dos mais novos, em casa. Era um evento familiar. Depois, o acontecimento passou a ter como cenário o hospital. Virou um mistério entre quatro paredes. O parto humanizado respeita os limites de cada mulher. A forma de lidar com a dor muda de pessoa para pessoa. Se ela ficar insuportável, nada impede que se tome anestesia. Infelizmente, essa opção nem sempre é dada nas maternidades públicas.

FMC – O parto natural também não usa medicação para induzir o nascimento…

LB – Não usa como rotina em todas as mulheres, ou seja, usa apenas quando realmente necessário. Por isso, a dor vem aos poucos e vai mudando até que chegue a hora da expulsão, quando se sente a vontade de fazer força e o bebê, então, nasce. Há vários recursos que ajudam a aliviar a dor, que estão presentes no livro. Para cada mulher é diferente. Pode ser massagem, banho de água morna, uma posição mais confortável… Se a gestante conta com uma equipe que a apoia, que a acompanha, ela acaba por encontrar o que é melhor para sentir-se bem. Acho muito ruim ter que seguir um padrão para parir, porque cada mulher é de um jeito. Por isso, defendo o parto humanizado, em que a mulher é, de fato, protagonista.

FMC – O parto normal, especialmente nos hospitais públicos, ainda tem muitos problemas, como a violência obstétrica.

LB – Sim. O que é oferecido em boa parte da rede é muito ruim. O corte na vagina, a episiotomia, para abrir a passagem do bebê, é comprovadamente desnecessário. Estudos científicos mostram isso e também que o procedimento pode ser prejudicial a mulher. Essa intervenção foi inventada por um homem. As parteiras não faziam isso. Com a medicalização da assistência, o parto foi perdendo em qualidade. E o que foi oferecido às mulheres no lugar daquele parto ruim, cheio de intervenções dolorosas e desnecessárias? A cesárea. Simone Diniz, médica e professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, que escreveu o prefácio do livro, tem uma frase que resume essa questão: “Chega de parto violento para vender cesárea”.

FMC – Então, você é totalmente a favor do parto natural para as mulheres e bebês em boas condições de saúde…

LB – Sim. Tive dois partos humanizados, em que pude fazer escolhas e fui respeitada. Desde o nascimento do meu primeiro filho sou uma ativista da humanização, e o livro, consequentemente, reflete esse pensamento. Não quero convencer as pessoas, mas mostrar uma realidade possível e que muitas mulheres ainda desconhecem.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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