Entrevista – Se as famílias não vão à escola, a escola vai às famílias!

A especialista em Educação, Heloísa Szymanski, defende que haja integração entre escola e família, mas sempre respeitando as características, papéis e expectativas das duas instituições para com as crianças. Como fazer isto, inclusive quando os pais não conseguem vagas na creche? Há exemplos concretos de sucesso? Confira algumas respostas, nesta entrevista que ela concedeu ao nosso blog.

Fundação Maria Cecilia – Como você vê a importância da integração entre creches e pré-escolas com as famílias?
Heloísa Szymanski – Não há dúvidas de que essa sintonia é importante, no entanto, a pergunta que fica é: de que forma promovê-la, considerando-se as especificidades de socialização que cada uma tem na vida da criança? As duas instituições têm objetivos e sentidos próprios que se mesclam quando a criança frequenta ambas. Ou seja, o que precisamos pensar é na maneira de a família participar da escola, respeitando seus valores, disponibilidade, expectativas.

Fundação – Como fazer isso?
HS – É essencial que, desde o início, haja uma sintonia entre os profissionais da escola e as famílias. Entender o que estas esperam da creche ou pré-escola. Por que estão deixando seus filhos ali? O que pensam dessa instituição que os acolhe? Muitos educadores se queixam de pais e cuidadores que veem na escola um local para manter o filho seguro, limpo e alimentado, não a considerando como um lugar de aprendizagem. Por isso, é importante acolher os anseios dos familiares e, ao mesmo tempo, colocar qual a intenção da escola, que é um espaço educacional, criando maneiras para que a família se aproprie disso. Essa adequação de objetivos e expectativas é o primeiro passo para gerar uma integração sustentável entre as duas instituições.

Fundação – O que mais é necessário para que essa interação se concretize?
HS – É preciso entender que não dá para pensar em integração sem considerar o contexto da família, especialmente a de baixa renda. Nas comunidades mais pobres, normalmente, existem vizinhanças organizadas, associações de bairro, igrejas e outras instituições formais ou informais. Quando se pensa em levar a família para participar da escola é preciso ter em mente esses outros grupos e também mobilizá-los em favor desse propósito, porque eles são os interlocutores em que as famílias confiam.

Fundação – O que você pensa sobre manter a criança em período integral na educação infantil. É ou não é bom para o desenvolvimento dela e para a relação familiar?
HS – Isso depende muito do contexto. Se a criança fica o dia todo com pais ou cuidadores distantes, pouco afetivos, que não interagem com ela, melhor é ir para a escola em tempo integral. Mas se ela tem pessoas que se vinculam, interagem, promovem bons estímulos, que são afetivas, ficar em casa é uma boa opção. O que considero prejudicial é a criança não ir para a escola em tempo algum. Acho ideal – sempre que possível – ela ficar meio período com seus cuidadores, tendo uma relação qualificada e de interação, e outro período na escola, para conviver com seus pares, receber outros estímulos, aprender a resolver problemas, ter trocas com adultos diferentes, estabelecer vínculos novos e desenvolver aspectos cognitivos importantes ao seu desenvolvimento. Permanecer em casa até os três anos, sem ir para a escola, é muito tempo, especialmente em ambientes conturbados. Dentre as exigências de nosso tempo para se viver melhor está a socialização e o desenvolvimento de habilidades específicas, que a escola ajuda a fortalecer. Isso precisa acontecer desde os primeiros anos de vida.

Fundação – E quando os pais não conseguem levar a criança à escola, seja por problemas de logística, seja por falta de vaga na creche?
HS – A escola pode ir até a criança. Pude conhecer uma experiência em que casos como estes eram solucionados com os educadores indo aos bairros para desenvolver atividades com os pequenos.

Fundação – Você acredita que programas de visitação domiciliar podem ajudar nesse sentido?
HS – Com certeza! Educadores têm muito a contribuir com esse trabalho nas famílias. Esse tipo de abordagem muitas vezes é melhor e mais promissor do que as reuniões na escola. Pais e cuidadores, especialmente de baixo poder aquisitivo, geralmente se intimidam em situações formais. Já na casa deles, recebendo pessoas que querem o bem-estar de seus filhos, essa troca pode se dar de forma mais natural. Propor atividades com as crianças, envolver os pais nelas, observar, orientar maneiras de criar vínculos entre adultos e crianças, são situações enriquecedoras. Também é uma forma de desfazer mitos e preconceitos que muitas vezes permeiam a relação escola e família.

Fundação – Você pode exemplificar um desses mitos?
HS – Por exemplo, a culpabilização das famílias, especialmente das mães, pelos educadores. Se a criança não se comporta, se não faz isso ou aquilo, a culpa é da mãe que não soube educar.  Para que esses e outros mitos sejam quebrados, é preciso preparar os professores e educadores nas entrevistas com as famílias a fim de conhecerem suas realidades, rotinas e culturas. Essa forma mais estruturada é uma experiência real que deu muito certo. O que percebo é que os professores precisam aprender a escutar mais. Quando se fala em comunicação, boa parte deles interpreta como sendo mostrar aos pais o que eles devem fazer. Esse não é o papel da escola. Na verdade, ela precisa compartilhar com a família o que tem sido feito para que haja uma integração. Isso precisa ficar bem claro para todos logo no início dessa relação, que deve ser dialógica.

Fundação – Há outras estratégias que a escola pode adotar para ampliar a participação da família?
HS – Acho importante a formação de grupos de pais, mães, avós, avôs… Eles podem pensar juntos e trocar experiências. A escola é fundamental para mostrar alternativas, especialmente de socialização. Muitos adultos acabam punindo as crianças com castigos físicos, agressões verbais e outros meios que não contribuem ao desenvolvimento infantil.  Alertar a família sobre a influência dessa maneira de estabelecer limites, na vida de seus filhos, é papel da escola. Outra atividade bacana é chamar, por exemplo, avós e avôs para contar histórias às crianças. Também é essencial propiciar aos educadores programas de educação continuada para que possam se relacionar melhor com as famílias. Nas reuniões formais, na escola, criar espaço para que os pais levem seus filhos, já que nem sempre eles conseguem ir a esses encontros por conta dos afazeres que têm com suas crianças. Estimular os pais a participarem dos conselhos escolares é outra forma de envolvê-los e informá-los. No site do MEC há algumas referências interessantes sobre isto. O mais importante é que a escola e a família entendam que não existe uma receita pronta para que essa integração aconteça, mas que ela é essencial e precisa de uma diretriz baseada em sintonia e respeito mútuo.

Heloísa Szymanski é doutora e mestre em Educação (Psicologia da Educação) pela PUC-SP, com pós-doutorado pela Universidade de Oxford, Reino Unido, e graduada em Psicologia, pela mesma universidade. Foi professora titular da PUC-SP até 2014.

As opiniões emitidas pela entrevistada são de sua inteira responsabilidade e não necessariamente representam a opinião da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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