Entrevista – Sem um trabalho de equipe, nem sempre a família cumpre o seu papel

Nesta segunda parte da entrevista, a enfermeira Maria da Saudade, especialista em parentalidade (conjunto de funções e responsabilidades dos adultos que se relacionam diretamente com a criança), discute as formas de apoio às famílias, especialmente dos profissionais de Saúde, para favorecer o bom desenvolvimento infantil.

Fundação Maria Cecilia – De forma prática, como a área da Saúde, especialmente a enfermagem, pode apoiar os adultos que exercerem a parentalidade?
Maria da Saudade de Oliveira Custódio Lopes – As funções parentais dirigidas à otimização do crescimento e desenvolvimento da criança exigem o desenvolvimento de processos cognitivos, comportamentais e interpessoais que têm de ser compreendidos e apoiados.

Os enfermeiros são profissionais de Saúde que, pela inerência de funções e pela proximidade com as famílias, podem apoiar na capacitação dos pais e das famílias nas habilidades parentais e na resolução das dificuldades, começando no período pré-natal e prolongando-se ao longo do ciclo vital. Este fato responsabiliza esses profissionais pelo apoio aos pais.

A maneira para isso se dar pode ser o desenvolvimento de programas e projetos e continuadamente nas consultas de vigilância, nas visitas domiciliárias, no atendimento de acordo com as necessidades dos pais, presencial, por telefone ou por outros meios de comunicação. Poderão ser assumidas várias estratégias de intervenção como a elaboração de guias antecipatórios e informação escrita, sessões formativas individuais ou em grupo, disponibilização de livros e meios audiovisuais, diálogos interativos, dinâmicas com grupos de pais e articulação e cooperação com outros serviços.

FMC – Quais os maiores facilitadores das famílias para que essa parentalidade aconteça?
MSOCL – As condições e características pessoais, familiares e comunitárias influenciam o exercício da parentalidade. Na família, os modelos de boa parentalidade e o bom relacionamento interpessoal entre os seus membros são facilitadores da parentalidade. Neste relacionamento destaca-se a existência de interajuda entre os pais da criança, logo seguida da ajuda dos avós e também a dos vizinhos.

Os estudos que realizei evidenciaram que a percepção de confiança e menos dificuldades dos pais associaram-se, em média, a valores mais elevados de recursos de apoio informal (onde se inclui a família). No entanto, as diferenças não tiveram significado estatístico em todas as dimensões da parentalidade (como o do apoio profissional).

FMC – Você acha, pela sua experiência, que os profissionais da Saúde estão prontos a dar a sua contribuição nesse processo ou também precisam de capacitações específicas para apoiar as famílias do exercício de uma parentalidade positiva?
MSOCL – A formação dos profissionais de Saúde está muito vocacionada para a monitorização de sinais e sintomas de doença, para a sua prevenção e para a promoção da saúde da criança e da família. No entanto, as necessidades físicas, segurança e desenvolvimento da criança têm sido as mais valorizadas e muitas vezes não considerando totalmente as potencialidades e as diferenças parentais. São necessárias alguma complementaridade formativa e a redefinição do perfil de competências destes profissionais para a promoção da parentalidade positiva e resposta às necessidades da comunidade. Contudo, é importante realçar que os profissionais de Saúde estão sensibilizados para a necessidade de formação contínua que deve ser direcionada para as áreas da sua intervenção e para o estabelecimento de parcerias com as escolas para a partilha do conhecimento.

FMC – Em sua opinião, o que a parentalidade positiva pode reverter em benefícios para toda a sociedade?
MSOCL – O principal benefício é o bem-estar das crianças que são valiosos membros da sociedade e titulares de direitos. O investimento na otimização do desenvolvimento da criança e a promoção da sua autoestima, autoconfiança e autocontrole, também edificam uma sociedade mais valiosa, com mais competências sociais e, prevê-se, com menor prevalência de infrações e de comportamentos desviantes.

FMC – Para que a parentalidade positiva se concretize de fato, o que mais os profissionais de primeira infância devem levar em conta?
MSOCL – O apoio à parentalidade positiva exige um trabalho de equipe e a construção de conhecimentos que devem ser partilhados e usados em proveito da sociedade, numa abordagem universal e não só dirigida a situações problemáticas. Esta abordagem também permite o desenvolvimento de um relacionamento positivo dos profissionais com os pais, oferecendo, assim, ajuda quando eles necessitarem. Os pais são os principais responsáveis pela criança com potencial natural e valioso, que deve ser otimizado, e com direito à diferença no desempenho do seu papel parental.

Maria da Saudade de Oliveira Custódio Lopes é professora Adjunta na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria, Portugal.

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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Comments

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  1. avatar

    O trabalho em Equipe Multiprofissional e uma necessidade, visto permitir aos profissionais, maior satisfacao pelo elevado nivel de assistencia ao paciente com ampla margem de seguranca. Apesar do atual numero de enfermeiros nao atender as necessidades exigidas pelo paciente, e necessario que os existentes conscientizem-se do papel a desempenhar na equipe multiprofissional, principalmente a nivel decisorio.

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