ESPECIAL – VI Simpósio Internacional (dia 7 – tarde): Qualidade como direito e a formação dos profissionais da primeira infância

A primeira mesa da tarde, intitulada “Qualidade como um direito”, sobre os aspectos necessários para que visitas domiciliares e programas de educação infantil obtenham êxito, reuniu Carla Peterson, da Iowa State University, e María Adelaida López, da aeioTU Fundación Carulla.

Carla explicou que programas de visitação domiciliar nos EUA já têm mais de cem anos. O serviço recebe muito apoio e está relacionado a menores taxas de maus tratos contra a criança.

O trabalho, geralmente, acontece entre o profissional que visita as famílias e a mãe. A ideia é que ela – e demais adultos que convivam com a criança – entenda seu papel no desenvolvimento de seu filho dentro do próprio ambiente. Sem esse engajamento, a proposta não avança.

Para Carla, é importante que os adultos entendam que as crianças não são receptores passivos. Elas têm desejos, pensamentos e posturas próprias. Levar em conta o que ela diz, os, seus componentes genéticos e o que ela já traz de bagagem são essenciais à integração com seus familiares e com o agente de visitação.

O objetivo dessa intervenção é desenvolver crianças e famílias saudáveis. Na creche, no centro das relações, estão as crianças e os cuidadores. Na família, estão as crianças e os pais. Esse aspecto é um diferencial dessas intervenções, que precisam ser considerados, dentro de um ambiente próprio. Nem todas as famílias têm casas para viver, mas são famílias do mesmo jeito. Necessitam de atenção.

Com relação ao agente que realiza as visitas, é fundamental que ele observe também as mudanças na dinâmica familiar ocorridas entre as visitas, o que foi transformado, o que não evoluiu, sabendo dar feedbacks transparentes aos adultos e apoio para que os avanços aconteçam. Os pais precisam ser envolvidos e sentirem-se compromissados com esse processo para que as interações amadureçam e se tornem permanentes na relação com as crianças.

“Dizemos que a interação dessas visitas é uma tríade entre o visitador, os pais e a criança”, explica Carla. “Por isso, o agente, seja ele de qualquer especialidade, de psicólogo a enfermeiro, tem de saber o que significa um vínculo familiar intenso, como estimulá-lo, inclusive incentivando os pais a usarem seus conhecimentos prévios para estabelecer a interação, por meio de conversas, jogos e atividades. Esse é o seu foco de atuação e quanto mais ele se dedicar a isso, melhor será o resultado”, define.

Um bom agente de visitação, para Carla, tem de ter bons conhecimentos sobre temas de desenvolvimento infantil, como os aspectos do pré-natal, quais fatores estressam a gestante, possuir habilidades específicas para engajar os pais, ser autorreflexivo e autocrítico e desenvolver uma postura colaborativa, vendo nos adultos parceiros importantes na construção do bem-estar da criança.

Na segunda parte da mesa, María Adelaide explicou o trabalho da aeioTU Fundación Carulla, que atua nos centros educacionais espalhados pela Colômbia, para prestar serviços de qualidade à primeira infância, fazendo a articulação com os pais das crianças atendidas.

Para falar da dinâmica desse trabalho, María parte da história do menino Kaleb, que vive em uma realidade vulnerável, mas que é um cidadão com sonhos, vontades, planos, protagonista de sua história. Ele se junta a 151 mil crianças beneficiadas pelo programa.

Um dos focos de atuação dessa proposta é a integração de todo o ecossistema em que a criança vive, que pode afetar seu desenvolvimento, identificando o que é positivo e negativo nessa influência.

O ponto de partida dessa escuta e da aprendizagem é a própria criança. Entender como ela vê sua casa, seu bairro, sua cidade. Quais são seus interesses, o que a interessa. “Dessa forma, ajudamos os pequenos a construírem sua identidade e o sentido de pertencimento”, explica.

Também é nessa plataforma de escuta e construção conjunta que a criança começa a entender e a praticar o sentido da democracia.

O enfoque pedagógico dessa proposta é muito claro e utiliza ferramentas curriculares que colocam a criança no centro, com o objetivo de enriquecer todos os lugares por onde a ela transita, da escola ao seu seu quarto, porque são espaços de pesquisa, de assombro, que desafiam seu pensamento e sua criatividade.

O objetivo é criar no adulto uma cultura de reflexão, que dialogue, que se pergunte como adquirir mais habilidades para acompanhar e apoiar o desenvolvimento da criança.

O trabalho da aeioTU Fundación Carulla, segundo María, tem dado bons resultados. As crianças são percebidas como líderes, elas são flexíveis, empáticas e resilientes. “Quando entram nessa dinâmica de construir o conhecimento, tornam-se protagonistas de suas vidas”, reforça. E complementa: “Percebemos que os pais estão bem melhores. Castigos e punições físicas diminuíram muito. Isto porque as crianças se autorregulam, têm melhor autocontrole e são capazes de tomar decisões”.

Durante o debate logo após a mesa, o professor Lino de Macedo, responsável pela moderação, fez uma importante colocação aos presentes, ressaltando que nós, adultos, “muitas vezes confundimos a dependência da criança dos adultos, que é legítima, com passividade. É um equívoco, porque a criança tem vontades, ideais, motivações e condições de se colocar nas diferentes situações para expressar o que pensa e sente. Só precisa ser motivada”.

Uma das questões feitas à María foi sobre a estrutura do projeto, se ele se alinhava a alguma política pública. “A Colômbia tem uma estratégia integrada de atuação com a primeira infância, com alinhamentos teóricos de base. Nós acolhemos vários valores dessa linha, juntando-os a nossa proposta de colocar a criança no centro. Nosso objetivo com isso é mobilizar a sociedade e transformá-la a partir da educação da criança, usando para isso ferramentas como a Arte, a Pedagogia e outras disciplinas”, explica.

Sobre o desafio de garantir acesso à escola a todas as crianças e manter a qualidade, María afirma que a Colômbia passa por esse impasse. “No caso da aeioTU Fundación Carulla, decidimos que iremos aumentar nossa atuação nos centros educacionais, atender mais crianças, mas sem perder o foco na qualidade. Para isso, será preciso fomentar mais parcerias para dar conta do desafio”, define.

Com relação aos critérios usados nas escolhas das famílias para os programas sociais focados na primeira infância, Carla explicou que há muitas variáveis, porque existem vários programas. Mas, geralmente, são escolhidas as famílias mais vulneráveis, pobres, com casos de adultos dependentes químicos, violentos, imigrantes em fase de adaptação ao País, na fase da gestação até crianças de três anos.

Perguntada como ela define o perfil ideal do profissional de primeira infância com apenas três palavras, María respondeu: ele tem de ter paixão, intenção e compromisso.

Formação dos profissionais da primeira infância

A segunda mesa da tarde reuniu Sara Barros Araújo, Professora do Instituto Politécnico do Porto, onde coordena o Mestrado em Educação Pré-Escolar, Patrícia Almeida, graduada em Pedagogia pela UNITAU, Mestrado e Doutorado em Educação pela Unicamp, e Anna Chiesa, Graduada em Enfermagem e em Saúde Pública, com mestrado e doutorado em Saúde Pública e Enfermagem, ambos concluídos na USP.

Sara iniciou a explanação falando da experiência de Portugal, conectada com o Tratado de Bolonha (1999), que estabelece diretrizes à capacitação dos professores para toda a comunidade europeia. O objetivo desse acordo é de qualificar e tornar mais atrativa a carreira docente, além de proporcionar que os educadores possam estudar ou exercer seus cargos em países que assinaram o acordo, ampliando as chances de empregabilidade.

A formação em Portugal está estruturada em três pilares: Licenciatura em Educação Básica, que todos os docentes devem cursar, Licenciatura em Educação Infantil e Mestrado em Pré-Escola.

Todos os cursos têm 50% de aulas teóricas e 50% de aulas práticas. Uma agência nacional independente monitora e avalia os cursos, dando recomendações. O Conselho Nacional de Educação, órgão consultivo do Ministério da Educação, produz relatórios com foco no trabalho dos professores para criar indicadores e metas.

A ideia de que todos os educadores tenham mestrado dá mais confiabilidade também à educação infantil, valorizando esse educador no sistema.

Sara levantou algumas fragilidades dessa estrutura, como a realização do estágio na parte final do curso, a discrepância do Mestrado da Pré-Escola, que não considera os três anos de creche.

Para o Brasil, com base em sua experiência, Sara sugere que seja dada relevância à formação do profissional da educação infantil, com qualidade, orientada para um desempenho profissional claro, sem fragmentação disciplinar, tendo os conhecimentos todos articulados, e que qualquer mudança e construção nessa formação conte com a participação dos profissionais e da sociedade, para que aconteça de forma horizontal e não como se deu na Europa.

Patrícia apresentou a realidade dos cursos de formação de professores no Brasil, uma realidade diferente da de Portugal, mas com algumas equivalências. Para ela, o curso de Licenciatura tem papel fundamental no início da carreira do profissional e, por isso, tem de ser qualificado. A professora considera que existem quatro etapas para se construir um docente:
1. Experiências prévias
2. Formação em instituição específica
3. Iniciação do exercício profissional
4. Desenvolvimento profissional contínuo

Os atuais cursos de pedagogia são frágeis. A maioria acontece à noite e boa parte a distância. A fragmentação de disciplinas que não vão a fundo dos temas é outro problema (disciplinas focadas em educação infantil são uma ou duas), assim como a formação que ainda acontece em algumas cidades por meio do antigo Magistério, em que cerca de 120 mil profissionais estão matriculados.

Sabe-se que 40% dos professores de educação infantil não têm nível superior. Mais de 70% deles estudaram em escolas públicas, passando por todas as deficiências desse sistema. As faculdades não conseguem dar conta dessas lacunas na sua formação.

Muitos alunos das faculdades de Pedagogia, que são as que têm o maior número de matrículas atualmente, estão ali apenas para conseguir um diploma de ensino superior.

Embora tenhamos conquistado o acesso da maioria das crianças à educação infantil, a qualidade desses espaços ainda deixa a desejar, também como reflexo da formação de um educador que, além de tudo, ainda é desprestigiado pela sociedade. “Aliás, muitos ainda acham que para trabalhar na educação infantil basta gostar de crianças e não se importar de limpar bumbuns”, lembra Patrícia.

Para ela, alguns programas públicos têm favorecido a formação dos professores, mas Patrícia acredita que seja prioritário investir na qualificação dos cursos de Pedagogia.

Outro problema é a dissociação entre teoria e prática, já que os estágios são pouco efetivos e ao final da formação. A professora defende que é preciso rever todo o currículo dos cursos que preparam os educadores para que respondam, de fato, à realidade e necessidades da criança, assim como é essencial quebrar paradigmas sobre a profissão, como sendo algo “maternal, feminino e que qualquer um que goste de crianças pode assumir”, reforça a professora, enfatizando:

“Não! Não é qualquer um que pode ser professor!”.

Anna Chiesa expôs a situação dos demais profissionais que atuam com a primeira infância, especialmente das áreas de Saúde e Desenvolvimento Social.

Depois de passar um trecho do vídeo Teoria da Mudança, Anna explica que o foco da formação dos profissionais deve ser o desenvolvimento de suas habilidades e competências para que possam atuar com as famílias e as crianças.

O objetivo é responder ao atual ciclo histórico, deste início de século, em que é necessária a integração do sistema educacional com a rede de serviços públicos e privados e a identificação das necessidades sociais, especialmente nos primeiros anos de vida.

Cursos e formações não podem mais se restringir a transmitir conhecimentos. Os alunos precisam entender as diferenças regionais e culturais de onde atuam, adotando uma visão sistêmica de compromisso com o todo e com as mudanças necessárias para garantir o bem-estar da criança e de sua família.

Anna lembra que 2016 foi um ano de conquistas para a primeira infância, com a aprovação do Marco Legal, fruto de um trabalho coletivo, com a participação de vários grupos sociais e institucionais. Esse avanço irá repercutir em todas as esferas do desenvolvimento infantil, desde os aspectos jurídicos e de saúde, até os relacionados à educação, cultura e lazer. Essas mudanças também devem afetar a formação dos profissionais, já que um dos aspectos do Marco é o e respeitar o ritmo de cada criança e olhá-la a partir da realidade onde ela está inserida, como ela está em relação a sua história.

Nesse sentido, a multissetorialidade e a intersetorialidade são necessárias para que essa visão integral aconteça, de fato.

Anna explicita as várias ferramentas que já estão disponíveis para que os profissionais possam também desenvolver as competências das famílias para que apoiem o desenvolvimento infantil: a Estratégia Saúde da Família, na saúde, a Lei de Diretrizes e Bases, da educação, a rede do SUAS, na assistência social e, mais recentemente, o programa federal Criança Feliz.

No entanto ela alerta: “A rede existe, mas não pode faltar recursos para que ela continue atuando. Não se pode retirar recursos desse sistema”.

Com relação a atuação intersetorial, Anna acredita que é preciso reconhecer a existência dessas ferramentas, entender as lacunas que elas apresentam para preenchê-las com ações complementares que apoiem as famílias. No território (município), “é importante combinar as ações de caráter universal e integrá-las as iniciativas locais. Já temos, por exemplo, a Caderneta da Criança, que ajuda a criar interação entre as ações das três áreas”.

“Quando se tem uma rede, é importante garantir uma gestão compartilhada para que alcance eficiência. Envolver a todos também é fundamental. Tivemos a experiência com o Programa Primeiríssima Infância que foi, inicialmente, implementado em seis cidades de São Paulo. Mapeamos os cursos de formação desses municípios e vimos que depois de um tempo eles passarão por aperfeiçoamentos, como foi o caso dos cursos de Enfermagem. Os profissionais envolvidos no Programa perceberam a necessidade de se criar disciplinas que atendessem a rede e favorecessem a integração. Isso é gerar mudanças na formação e no sistema”, comemora.

Anna recomenda que se revejam as matrizes curriculares de todas as profissões que atuem com a primeira infância, assim como investir em formações interdisciplinares. Também acredita ser importante fortalecer os processos de extensão universitária aliada à pesquisa e assegurar espaços de educação permanente para subsidiar os profissionais e formas de mensurar as questões qualitativas.

Durante o debate após as explanações, foi perguntado à Sara sobre o tempo dos cursos em Portugal, se foram ampliados. Ela afirmou que sim, mas que não acredita em cursos muito longos. Eles precisam estar em sintonia com as necessidades da primeira infância.

Outra questão foi sobre a importância de esses cursos preverem o desenvolvimento das competências emocionais dos profissionais. Patrícia concordou que é importante: “Além das competências técnicas e teóricas, necessárias à profissão, é essencial que o professor tenha sensibilidade, saiba olhar para cada família. Alguns cursos de Pedagogia já tem esse cuidado, que é essencial”.

Você pode ter acesso aos materiais das palestras, clicando aqui.

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