Melhores momentos do VII Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância

Já estamos com saudades das palestras, discussões e interações vivenciadas há uma semana, no dia 7 de novembro de 2017, em Fortaleza, CE. Para você, que não pode assistir presencialmente ou pela internet ou pelos Simpósios Satélites, segue uma síntese do que foi debatido. Se você nos acompanhou de alguma forma naquele dia, esta é a hora de recordar! (clique nos links destacados em azul para acessar os vídeos das palestras)

Cerca de 400 pessoas estavam presentes quando Dario Guarita Neto, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Maria Cecilia, abriu o evento, seguido pela primeira-dama, Onélia Leite.

Ambos destacaram a importância de se discutir e compartilhar os avanços da ciência para que as políticas públicas focadas nos primeiros anos de vida sejam, de fato, eficientes, fortalecendo a base da sociedade. Ceará é um dos estados que apresenta bons resultados nesse sentido e está cada vez mais empenhado em realizar ações integradas entre as diferentes áreas para que a criança e a família recebam o suporte de que precisam para favorecer a primeira infância local e do País. Uma das estratégias adotadas pelo Estado é a de trabalhar, ativamente, em sintonia com os municípios. Ao mesmo tempo, é preciso estabelecer parcerias entre o poder público e as organizações sociais para que mudanças efetivas aconteçam e transformem vidas.

Daniel Becker – “A criança como valor para a sociedade”
O pediatra abriu o ciclo de palestras e foi enfático sobre a urgente necessidade de a sociedade priorizar a primeira infância se quiser torna-se próspera e sustentável. Dr. Becker também ressaltou que a família precisa receber um olhar diferenciado, porque é no seu meio que se dão as primeiras interações, vínculos e formação da personalidade do indivíduo. Ele lembra que a tecnologia, muitas vezes, vem ocupando o lugar das relações humanas, assim como a terceirização do cuidado da criança. Outro aspecto que sua palestra abordou foi o brincar. “As crianças brincam menos. Há recreios nas escolas cada vez mais curtos. Não existe contato com a natureza. A energia que elas naturalmente têm acaba canalizada para os eletrônicos. Elas vivem exiladas de sua imaginação. O ócio também não é respeitado.” Para o doutor, programas de visitação domiciliar, como a estratégia Saúde da Família, são eficientes: “Atingem 120 milhões de pessoas e tem um potencial enorme para a melhoria da saúde do Brasil, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) que é um núcleo de investimento riquíssimo na primeira infância”. Veja o que mais Dr. Daniel pensa do tema, acessando aqui a entrevista que ele deu ao blog.

Luciana Aguiar – “Desenhando políticas públicas em que o indivíduo vem em primeiro lugar”
A Gerente de Parcerias para o Setor Privado do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) começou sua palestra dizendo que 75% das crianças com menos de quatro anos estão fora da escola. Ela ressaltou que pouco investimento nessa fase da vida resulta em níveis educacionais sofríveis, doenças crônicas e baixa produtividade. Diante de uma realidade ainda desfavorável, como faremos para cumprir a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030? Como não deixar nenhuma criança para trás? Ao mesmo tempo ela lembra que investir nos primeiros anos de vida pode levar à construção de um Brasil melhor, e de consequentemente de um planeta mais justo. Prova disso são pesquisas que indicam que a cada dólar aplicado em políticas públicas de primeira infância serão economizados sete dólares em políticas para adultos, ou seja, evitam-se gastos para consertar ou minimizar as consequências das negligências na infância. Ela cita soluções bem-sucedidas em países com perfil de desenvolvimento semelhante ano nosso, e aponta a tecnologia como uma ferramenta poderosa na aceleração desse processo de mudança, porque promove a escala. Lembra que qualquer solução precisa de monitoramento e avaliações constantes para ajustes de processos que promovam bons resultados. “O desenho de novas soluções é necessário. Não chegaremos aonde queremos chegar fazendo mais do mesmo. Precisamos olhar para políticas públicas no longo prazo e ver na primeira infância a oportunidade de transformação”, ressalta.

Ana Lucia Lima e Marcia Machado – “A família e a criança no centro das políticas públicas e programas”
A pesquisadora Ana Lucia, diretora de consultoria especializada Conhecimento Social – Estratégia e Gestão, apresentou a pesquisa “Primeiríssima Infância Creche – Necessidades e interesses de famílias e crianças”, realizada pela Fundação Maria Cecilia e o Ibope. Mostrou de que forma ela foi estruturada e os principais resultados, além de destacar que especialistas em primeira infância debruçaram-se sobre o documento para fazer uma análise robusta dos principais dados colhidos. A questão inicial é que a desigualdade começa na creche, por conta do acesso. Afinal, a maior parte das crianças que a frequenta não é de famílias mais vulneráveis – as que mais precisam desse espaço de desenvolvimento para seus filhos. A percepção das famílias sobre o papel da creche no desenvolvimento dos filhos, a importância que ela tem ao estabelecer rotinas, de que forma pais e adultos de referência percebem a qualidade desse serviço, como o grau de instrução, a profissão e o nível socioeconômico dos pais ou responsáveis interferem na forma como estes veem esse espaço educacional, dentre outros dados, são aspectos que a pesquisa levanta e analisa. Você pode acessar tudo isto, clicando aqui e fazendo o download do documento.

Márcia Machado, Pró-Reitora de Extensão, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará, trouxe o exemplo de programas de visitação familiar como uma das soluções para fortalecer a primeira infância, já que coloca o sujeito no centro de sua atenção (a criança e a família). Mas levanta algumas questões que precisam ser trabalhadas. A pesquisa que a universidade realizou revelou que muitos agentes de saúde têm dificuldade de falar de vínculo com as famílias que visitam. Isto porque não viveram essa realidade nas suas infâncias. “Como dar o que você não tem?”, questiona a especialista. Ela ressalta a implementação do Programa Primeira Infância Melhor (PIM), no RS, em que mães voluntariamente se candidataram para participar da formatação da proposta. As visitas domiciliares foram filmadas pelos agentes, devidamente capacitados, que depois identificavam pontos positivos das relações parentais daquele núcleo. A partir deles, interagiam com os pais para fortalecer o que estava sendo bem feito e o que precisava mudar na construção dos vínculos com a criança. Foram oito visitas que construíram essa relação com a família e da família com a criança a partir da realidade de cada uma. Cada intervenção era uma resposta a uma questão daquela família. Essa individualização faz toda diferença e é um ponto forte para o sucesso do programa.

Ana Carolina Vidal – Lançamento do “Guia Primeira Infância em Pauta”
Logo após o almoço, Ana Carolina, da Fundação Maria Cecilia, lançou, em nome da organização, um guia com orientações para aprimorar a comunicação sobre essa fase fundamental da vida. Voltado a lideranças públicas, jornalistas e profissionais de Comunicação, profissionais focados na primeira infância (agentes de saúde, professores, assistentes sociais etc.), traz subsídios na elaboração de textos, reportagens, aulas, vídeos, folders e outros veículos para comunicar e disseminar a causa. O guia completo você acessa clicando aqui .

Claudia Costin e Jennifer Guevara – “Desafios e oportunidades na implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)”
Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais e professora da FGV-RJ, abriu a tarde falando da BNCC. Ela lembrou que a educação começa nas interações cotidianas da mãe com o bebê e familiares, mas é uma responsabilidade compartilhada entre escola e famílias. Para ela, muitas crianças já foram deixadas para trás aos dois anos, por não viverem boas interações e vínculos parentais. Esse atraso se reproduz na escola e, com isso, as vulnerabilidades aumentam. A Base vem trazer uma unidade para que a educação infantil possa dar um passo à frente no sentido de fazer a sua parte nessa educação plena da criança. No entanto, alguns aspectos ainda são falhos nesse documento, que precisam de ajuste para alcançar os objetivos esperados. Existe uma resistência evidente de alguns grupos com relação à Base Nacional, mas, para Claudia, “mudanças exigem perdas e muitas pessoas querem evitá-las. É aí que se dá o fracasso.” A especialista acredita que os secretários de educação terão de se conscientizar da importância de traduzir a Base Comum para os currículos municipais. Será o momento para avaliar o que é específico do município, envolver os professores e até os pais no processo e verificar o que falta na formação, estrutura, materiais de apoio ao professor, brinquedos e mobiliário apropriado para as salas. Saiba mais, conferindo a entrevista que Claudia concedeu ao blog. Clique aqui.
Jennifer Guevara, pesquisadora associada do Programa de Educação do Centro de Implementácion de Políticas Públicas para la Edquidad e el Crecimiento, apresentou as reflexões de uma pesquisa realizada em parceria com a Fundação Maria Cecilia para entender bases curriculares focadas na primeira infância de outros países cujos resultados nessa fase do ensino se mostraram positivos. A pesquisa analisou os casos da Argentina, do Canadá (Ontário), da Holanda, Suécia e do Chile com o objetivo, à época, de ter subsídios para contribuir à elaboração da BNCC no Brasil. O primeiro aspecto percebido pela equipe é que para entender e se desenhar uma Base é essencial compreender o momento em que ela está sendo implementada, porque o documento não pode ficar à margem do contexto das políticas públicas de educação, saúde e assistência social de primeira infância. Também é importante que seja analisada à luz da situação da oferta desse serviço e os desafios enfrentados naquele momento pelas nações. Também se percebeu que a Base é criada conforme a resposta dada à pergunta-chave: O que queremos atingir com a educação infantil? Outro aspecto que favorece o sucesso da construção e implementação da Base é a participação da sociedade, desde as famílias e os professores até as universidades, lideranças e os gestores públicos.

Carolina Larriera – “Liderança para o impacto positivo”
A especialista em treinamento de lideranças, com atuação no Brasil, EUA, Argentina, Suíça, Iraque e Timor-Leste, falou das lideranças adaptativas. Ou seja, aquelas que, de acordo com o contexto histórico e social dos países, precisam rever sua atuação, atendendo às novas necessidades da população. Carolina partiu de sua experiência no Timor-Leste, em que os guerrilheiros, tão essenciais ao processo de independência daquele país, quando venceram essa batalha e elegeram um presidente local, perderam a sua identidade e o reconhecimento popular. Como preparar essas lideranças para outro tempo, de conquistas diferentes? Para ela, lideranças que querem gerar transformações reais e positivas precisam se libertar das expectativas que as pessoas fazem delas e romper com padrões improdutivos, revendo antigos e ultrapassados processos. Ela lembra que liderança não é uma questão de posição, porque qualquer pessoa pode exercê-la. O Marco Legal da Primeira Infância, por exemplo, estabelece um novo momento. “Só fazer a lei não resolve nada. Foi um processo bem complexo que requer pensar em como vai ser sua implementação, quem vai falar com quem, como lidar com questões territoriais, integrações de governos… Enfim, temos de mudar comportamentos e saber como as partes vão interagir entre si”, alerta a especialista.

Eduardo Queiroz, Diretor-Presidente da Fundação Maria Cecilia, encerrou o evento, fazendo uma retrospectiva dos temas e bases das discussões. Essa fala, bem completa e conclusiva, você pode acessar, assistindo ao vídeo aqui.

Para ver todas palestras, uma seguida da outra, você também pode clicar aqui.

Ano que vem tem mais!

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