“O afeto é a fita isolante das ligações entre os neurônios”

Esta é uma das afirmações do economista Flávio Cunha, no filme “O Começo da Vida”. Nesta entrevista exclusiva ao nosso blog, ele fala como interação e diálogo podem influenciar não só o futuro da criança, mas o de todo País.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – Para muitos, pode parecer estranho falar que o vínculo com a criança tende a afetar o bem-estar de uma sociedade…
Flavio Cunha* – Estudos realizados com crianças, nos anos 1960, hoje adultos com mais de 50 anos, mostraram que o vínculo, o amor, o diálogo experimentados por uma parte do grupo pesquisado contribuíram para que essas pessoas adquirissem mais educação, melhor renda na vida profissional, com participação qualificada no mercado de trabalho, tivessem casamentos duradouros, adquirissem a casa própria, se envolvessem menos em delitos. Tudo porque receberam intervenções positivas na Primeira Infância e seus cérebros se desenvolveram sadiamente, as conexões neuronais foram preservadas e fortalecidas pelo afeto. Os economistas sempre reforçam uma equação bem interessante sobre o retorno desse cuidado: cada 1 dólar investido nos primeiros anos de vida traz um retorno de 7 dólares para a sociedade. Mas é muito mais que números. Criar vínculos e acolher a criança é ajudar a formar cidadãos plenos que podem fazer diferença na sociedade, resgatando valores e condutas mais solidárias.

FMCSV – Então podemos concluir que se não cuidarmos dessa fase da vida, podemos “perder” cidadãos e profissionais incríveis.
FC – Sim. A desigualdade social, por exemplo, aliada a essa falta de vínculo, de diálogo, é outro fator que interfere no desenvolvimento infantil. Essa desigualdade começa cedo na vida de muitos indivíduos. Por exemplo, crianças que exercem o papel de cuidadoras de outras crianças, os seus irmãos, podem não ter espaço para investir no próprio desenvolvimento. Elas acabarão em subempregos, em trabalhos difíceis de executar, que afetam a saúde, receberão salários baixos o que, também, compromete o crescimento econômico e o capital humano de um país. Vamos imaginar que uma criança nessa situação tenha a capacidade genética para ser, por exemplo, uma ótima médica, uma cientista, que poderia descobrir a cura do câncer. Como ela foi penalizada pela situação em que vive, sem os cuidados de que precisa, sem afeto e condições econômicas básicas, ela não desenvolve seu potencial plenamente. Perdem todos: ela, sua comunidade e o mundo que, em trinta anos, poderia ter a solução para uma doença tão grave como essa.

FMCSV – Então, se todos perdem, todos são responsáveis por cuidar da criança.
FC – Os pais têm um papel importante nesse cuidar, no estabelecimento desse vínculo e diálogo, de oferecer recursos materiais para seu bem-estar. Mas se eles não conseguem dar conta de viabilizar essas condições aos seus filhos, as políticas públicas precisam ajudar a construir um capital humano que vai embasar a sociedade por toda a sua história. Investir na Primeira Infância é essencial, mas não podemos esquecer de iniciativas que deem ao indivíduo um suporte seguro para viver todas as etapas de sua existência.

FMCSV – Falando dos pais, da família. O que mais eles precisam saber para ajudar seus filhos a se desenvolverem plenamente?
FC – Muitos estudos indicam que o que os pais sabem sobre desenvolvimento infantil influencia a sua contribuição ao desenvolvimento de seus filhos. Ou seja, informação é tudo. Ensinar para a criança de um ano que 5+5=10 não faz sentido algum. Nessa fase, os pais têm de saber que seus filhos precisam desenvolver habilidades como brincar, cantar… O filme “O Começo da Vida” tem uma cena linda sobre isso. Mostra uma mãe brincando de esconde-esconde com seu bebê usando um lenço. Essas brincadeiras é que são essenciais para criar essa ligação, esse diálogo da criança com o adulto e é a elas que os pais devem se dedicar. Estar com a criança, interagir com ela é muito diferente de ficar no mesmo espaço, pais e filhos, mas vendo TV ou cada um em uma atividade diferente. Fica claro que pais que investem na criança são aqueles que passam mais tempo com elas nessa dinâmica de interação, de brincadeira, de muita conversa. Começar cedo, nos primeiros anos, é mais fácil e eficaz. Depois dos seis anos, torna-se um pouco difícil, embora ainda seja possível. Mas é no início da vida que as conexões cerebrais estão no ápice. Por isso considero essencial que existam programas e políticas públicas que apoiem as famílias, mostrando-lhes como interagir e dialogar com seus bebês. Na Jamaica, por exemplo, um grupo de pessoas visita as famílias para ajudá-las nesse aprendizado. Isso não é um gasto. É investimento no futuro de uma sociedade sustentável e mais justa para todos nós.

*Flávio Cunha é economista, professor da Rice University (EUA).

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Comments

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  1. avatar

    Fantástico.
    Me fez lembrar a palavra da Bíblia que diz:
    E no principio era o verbo e o verbo se fez carne.
    A primeira infância começa com a notícia de uma gravidez.
    Esperando ansiosa pelo filme.

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