“O amor é a força mais sutil do mundo”

Por Caroline Cabral

“Nos olhamos por um bom tempo enquanto ela cantava e dançava uma música sobre borboletas que voam alto, alto, alto (seus bracinhos repetiam o bater das asas). Não falamos a mesma língua, mas dominamos a linguagem que nos conecta com olhares profundos e sorrisos imensos, vastos, capazes de abraçar o mundo. Nos espiamos por um bom tempo, reconhecendo o que havia de mais belo na outra. Tímida, ela se aproximou com um passinho. Sorri. Deu então outro passinho. Consenti novamente. Até que criou coragem para tocar a primeira mulher branca que lhe cruzou o caminho. O clique capturou este momento que vai durar infinitamente dentro de mim. Mas escrevo para falar de outra coisa: o que eu vim fazer em Uganda, na África.

É bastante frustrante não saber explicar o que estou fazendo em Uganda com a UNICEF. Serei honesta: eu não conseguia – e talvez ainda não consiga – transmitir o real significado do projeto e da viagem. Complicadíssimo assinar uma sentença dessas enquanto jornalista. Lido com palavras o tempo inteiro. Quando elas fogem de mim me vejo abrindo a boca incapaz de emitir sons; um grunhido sequer. Penso em começar um post e fracasso ao constatar que nada traduz o universo interior que me contém. Fico vulnerável. Me sinto uma eterna estagiária a serviço dos meus textos: nunca pareço boa o bastante pra eles.

Cheguei em Kampala, capital de Uganda, no domingo. Aqui conheci jornalistas extraordinários que fazem um trabalho fantástico cobrindo temas relativos à Primeira Infância – período que vai da gestação aos 8 anos de idade e é determinante na formação de QUALQUER ser humano. Pequenos e grandes gestos nessa época da vida farão com que a criança exerça, ou não, todo seu potencial na fase adulta. Independente da sua atual capacidade de aprendizado, garanto que você nunca mais aprenderá tanto quanto aprendeu nessa época de crescimento e formação. Crianças são esponjas, absorvem absolutamente tudo que lhes rodeia.

Então, a convite do ICFJ Anywhere, com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e da UNICEF Uganda, comecei um trabalho sobre Primeira Infância há quatro meses. Job description? Cobrir o tema de maneira acessível para nossas leitoras, transmitir a mensagem e impactar pessoas. Publiquei matérias na Revista AnaMaria (desde meditação para crianças – amo – até a importância do aleitamento materno exclusivo e de nutrir filhos com AMOR) e me dediquei a entender um mundo até então desconhecido.

Inocente de tudo, percebo agora que desconhecia, também, a urgência dessa pauta. Se queremos construir uma sociedade melhor para nossos filhos vamos precisar começar pelas crianças de hoje. Não é um trabalho para amanhã, é agora! As ricas conversas com representantes da UNICEF, jornalistas, médicos, políticos e colegas de outros países abriram um portal na minha mente que dificilmente fechará: existe um mundo que a gente desconhece. São vários deles, os chamo de realidades paralelas. Mas basta que uma delas se incline – um pouquinho só – e as linhas paralelas se tocam. É aí que o impensável passa a ser real, o estranho nos parece íntimo e a gente se perde num mar de pensamentos que trazem dor e alívio.

A dor é óbvia, anunciada: miséria é desumano. Crianças não deveriam pagar altos preços pelas escolhas da sociedade (e não só dos pais, tá bem? é responsabilidade do meio criar todas as novas vidas que o habitam, não só de pai e mãe). Dói constatar que miséria tem cor, endereço, nome, idade, gênero… Mas a despeito das grandes dores sofridas por seus pequenos corpinhos em formação, a miséria é capaz de sorrir pra uma estranha.

Meu alívio vem da compreensão de que existe muita gente que se importa com o destino da humanidade. Que enxerga além de números, do lucro e das vendas. Pessoas reais, que trabalham para pagar as contas e são capazes de alcançar bocas famintas, olhos sedentos por um encontro e almas carentes de amor. Desamor é a pior praga recente e esses seres humanos estão provando que há um antídoto. Você pode, sim, ser uma jornalista incrível, seguir as diretrizes da sua empresa e casar com a visão romântica da profissão que, de véu e grinalda, lhe promete: “papel e caneta na mão e você pode mudar o mundo”.

Vim aprender com essas pessoas sobre uma realidade que foge de tudo que já vi. Nada tenho a ensinar aqui, sou mera aprendiz da vida que se vive. Conheci pessoas esmagadas por estatísticas cruéis de incidência de HIV, desnutrição, morte infantil, gravidez indesejada e outras legendas nada agradáveis. Sufocadas por elas, mulheres e crianças buscam suas forças na mãe terra para gritar o que sai como um sussurro exausto: ‘eu existo’.

E é porque elas existem que estamos aqui. Para que essas roucas vozes sejam notadas, crianças escondidas sejam vistas e o futuro pinte uma tela mais harmoniosa, como é o céu africano ao entardecer, tingido de laranja-cor-da-terra. Intenso, enche nossos olhos de esperança e, ao se despedir, deseja bons ventos para o dia que há de nascer amanhã. Nossas crianças são o amanhã, tratemos de cuidar delas hoje!”

Você tem até 6 de agosto para fazer a sua inscrição na próxima turma do curso do ICFJ (Centro Internacional para Jornalistas), sobre primeira infância. Viva também a sua experiência transformadora, que fará diferença na vida de muitas crianças!

Fonte: Post da jornalista Caroline Cabral, no Facebook 

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Comments

1
  1. avatar

    Que maravilha!
    Sensibilidade imensa,humanizadora.
    Quando” crescer “quero aprender como vc,ter uma experiência dessa,dimensão fantástica da vida,vida aqui agora.
    É isso que me move nestes 22anos trabalhando com a educação infantil!
    Parabéns!!!

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