“O bebê se forma a partir dos relacionamentos de amor!”

Nesta entrevista exclusiva com Estela Renner, diretora de “O Começo da Vida”, você vai conhecer detalhes inéditos do filme e momentos especiais que a emocionaram e mexeram com seu lado mãe, mulher e cidadã.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – Antes de falar do processo do filme em si, conte pra gente o que mais te emocionou durante as filmagens.
Estela Renner – Eu me emocionei muito com a coragem das famílias que deixaram a gente entrar nas suas casas, participar de suas vidas. Nós estávamos lá quando a Taís, que aparece logo no começo do filme, deu à luz. Eu sinto que entramos no essencial do essencial do essencial. Poder estar ali, sem pressa, observando a mãe que brinca com seu filho, ver sair um monte de virtudes dessa relação, é mágico. Por outro lado, sentir a textura das injustiças, da miséria, da negligência… A cada família vulnerável que a gente visitava, por mais que ela estivesse acostumada com o seu viver, pra nós, na van, depois da diária de filmagem, o silêncio causado pela tristeza e pela revolta eram ensurdecedores.

FMCSV – Com tudo que você pesquisou e viveu para realizar o documentário, tem alguma coisa que você faria diferente com seus filhos, se pudesse voltar no tempo, para a Primeira Infância deles?
ER – Sim. Eu fiquei muito impactada com a proposta da cidade italiana Reggio Emilia. Se soubesse que existia algo assim, naquele tempo, talvez tivesse feito outra escolha para meus filhos. A cidade acolhe, a escola respeita a criança. Tudo é natureza, cor, luz, textura… A base é a interação, o relacionamento, a autonomia, o social. A escola tem um enorme respeito com a investigação científica da criança, com a sua capacidade de construir o próprio conhecimento. Para eles a escola não é uma preparação pra a vida, é a própria vida.

Filmagens de "O Começo da Vida" na China. Foto: Julia Chang.

Filmagens de “O Começo da Vida” na China. Foto: Julia Chang.

FMCSV – Temos sempre a preocupação, como instituição, em traduzir o conhecimento científico sobre Primeira Infância (período que vai da gestação aos seis anos) para o público. Essa comunicação é muito importante para fortalecer a causa. Você conseguiu fazer isso de uma maneira impecável. Quais estratégias você usou, especialmente nas conversas com os especialistas?
ER – “O Começo da Vida” é meu terceiro documentário. Acredito que esse conhecimento acumulado me ajudou bastante. São anos de pesquisa sobre temas relacionados à infância. Cada filme é como um mestrado. E cada filme é sempre um mergulho profundo e volumoso. Na minha opinião, sem este rigor, o filme ficaria frouxo, desatento. Como fazemos filmes que atendem causas urgentes, existe uma alma grande por trás, de uma multidão forte, que quer muito dar o seu melhor. Acho que isso o imprime. Quando entrevisto um especialista, mais do que um técnico tem ali uma pessoa. A comunicação física traz muito do que ela pensa, mesmo porque existe uma predisposição em falar do tema, de se entregar, com alma, àquele conteúdo diferenciado. O meu papel é perguntar, ouvir, observar. Estou ali olhando sob vários ângulos. Quando escuto algo que o público pode não entender, eu volto à questão e a resposta vem.

 

FMCSV – Você tem um exemplo de algo que aconteceu nas filmagens nesse sentido, com um especialista?

ER – Um exemplo foi a conversa com o Prêmio Nobel de Economia, James Heckman, que tem um trabalho que diz que o investimento mais rentável que existe pra economia é o de recursos na infância. Ele falava que através desse investimento a criança, quando se tornasse um adulto, ia ser mais autônoma, mais produtiva, mais saudável e que a desigualdade social diminuiria. Que investimento pode ser tão revolucionário? E eu perguntei: “E… e o amor, professor?” Ele fez uma pausa, e eu pensei, “ferrou”. Daí ele disse: “Como assim o amor? Desde o começo eu estou falando de amor!”. “Putz! Que bom!”, respondi, e pedi para ele, por favor, usar essa palavra dentro de sua resposta, ao que ele respondeu: “Sure!” (Claro!). Isso me deu uma grande luz pra entender o que dezenas de especialistas, psicólogos, médicos, enfermeiros, educadores, neurocientistas, assistentes sociais estavam prestes a me dizer: que o bebê se forma a partir dos relacionamentos de amor! Acho que existe ainda certo pudor com essa palavra, especialmente no universo acadêmico. É natural, mas meu papel é fazer essa “tradução”.

FMCSV – Você deve ter gravado muitas imagens. Qual foi seu critério para escolher quais ficariam no filme?
ER – Muito das nossas escolhas na montagem tem a ver com o mundo que queremos construir. Cada cena, mesmo as de dois segundos, foi escolhida com um propósito por trás. Por exemplo, em 61% cenas em que a gente vê as crianças brincando, escolhemos as que elas manipulavam objetos que não eram brinquedos comprados, com a natureza, com seus amigos, seus pais e com coisas de casa.

FMCSV – Estela, então agora conta pra gente como foi o processo de criação do documentário.
ER – A Fundação Maria Cecília Souto Vidigal me procurou para compartilhar o desejo de realizar uma produção que comunicasse ao público em geral a importância dos primeiros anos de vida na formação do indivíduo. Esse convite aconteceu porque a nossa produtora, Maria Farinha Filmes, escolheu a missão de produzir filmes que sejam ferramentas na transformação social e ambiental para um mundo melhor. Em pouco tempo outras fundações se juntaram para apoiar a iniciativa: o Instituto Alana, a Fundação Bernard Van Leer e o UNICEF. Levamos três meses para entender qual seria o melhor formato para falar do tema da Primeira Infância. O processo todo demorou cerca de três anos. Isso inclui pesquisa, roteiro, pré-produção, filmagem, montagem e finalização, lembrando que a pesquisa nos acompanhou até o último dia de montagem. O documentário tem essa abertura, de conseguir pautas novas no decorrer do processo. Não é uma obra engessada. É uma obra viva, pulsante.

Estela durante filmagem de "O Começo da Vida" na Índia.

Estela durante filmagem de “O Começo da Vida” na Índia. Foto: Maria Adela Mitre

FMCSV – Você tem planos para o futuro? Vai dar continuidade ao tema?
ER – Sim. Com 400 horas de material, 9 países visitados, não podíamos fazer só um longa-metragem. Também fizemos uma série de 6 episódios de 45 minutos cada, com recortes que abordarão os temas conexão cerebral, o que é tornar-se pai e mãe, como se dá a formação do indivíduo, educação, infância negada e políticas públicas. Vamos lançar no segundo semestre de 2016 pelo Videocamp e Netflix.

FMCSV – Você imaginava que a receptividade do público ao documentário seria tão enorme como tem sido? Como você vê a reação das pessoas?
ER – Eu estava imersa no meu trabalho. Não pensava nisso. Só na montagem final tive a sensação de que com tudo o que eu tinha colhido a forma de encaixar as peças do quebra-cabeça era aquela. Demos o melhor da gente. A reação das pessoas é muito profunda. Vai além do filme. As falas sobre o que sentem são grandiosas. No fundo, todos nós queremos um planeta diferente, sem violência, miséria, injustiça. Uma sociedade mais humana. Há algum tempo existe uma grande onda em torno desse desejo e o filme é uma ferramenta importante pra que a gente cante junto essa necessidade de lançarmos novos traços culturais. De empatia, colaboração, cultura de paz e criatividade.

E você, tem uma pergunta que gostaria de fazer à Estela Renner? É só deixá-la nos comentários. Cinco delas serão selecionadas para que Estela responda. Participe!

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Comments

10
  1. avatar

    ótimo artigo, simplesmente amei o contéudo!!! Muito Obrigada!!!

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      Que bom que você gostou, Angela Martins. Continue nos acompanhando e também conheça o acervo digital no nosso site http://www.fmcsv.org.br Lá você também encontra publicações e vídeos com vários temas relacionados à primeira infância. Abraços.

  2. avatar

    Boa tarde, Estela. Uma curiosidade minha: as famílias que participaram do documentário terão acesso ao resultado final? Vocês disponibilizarão de alguma forma, para que elas assistam? Seria muito bom que elas vissem que seus depoimentos foram muito importantes. Seria possível fazer uma exibição, como um cinema comunitário, na cidade delas? Beijos!

  3. avatar

    Estela, vocês encontraram alguma família cujos filhos não foram desejados e não eram bem cuidados, não tinham carinho?

  4. avatar

    Teve algum trecho do filme que você retirou na edição final, por considerar que era triste demais para o público suportar? Se a resposta for sim, qual foi a história retirada?

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    Estela: Eu imagino que tenha sido muito difícil para vocês, ver a situação difícil em que se encontravam muitas famílias. Vocês puderam orientar e encaminhar essas famílias para algum tipo de assistência governamental ou ONG, ou não foi possível, por causa da região, da falta de recursos locais…

  6. avatar

    Estela: você já pensou em fazer um documentário sobre “O Fim da Vida”, mostrando como é a vida dos idosos que viveram cada tipo diferente de oportunidade? Aqui me explico: para mostrar a vida de quem teve mais oportunidades e menos oportunidades, desde a primeira infância, como foi a juventude e como está sendo a velhice, através dos relatos deles e de suas famílias.

  7. avatar

    gostaria saber mais sobre a gestação e sobre a presença da alma quando se dá

  8. avatar

    Estela, não sei se os pesquisadores entrevistados pontuaram isso, mas queria saber como são as memórias da primeira infância. As crianças se lembram das coisas mesmo, ou só das mais traumáticas? Ou precisam ouvir do adulto relatos de sua infância e construir a memória a partir da repetição, ouvir sua história a partir daqueles que a cercam?

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