Todas as famílias exercem a parentalidade. Você sabe o que é isto?

Na entrevista de hoje, Ricardo Barroso, doutor em psicologia, de Portugal, explica o que é parentalidade, um assunto muito importante e que não diz respeito apenas aos pais. Ele aborda os fatores que podem influenciá-la e as formas de exercê-la. Também chama a atenção para o uso do castigo físico como estratégia educativa, atitude que condena totalmente. “Temos de trabalhar para que essa prática acabe e mostrar aos pais outros caminhos”.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – O conceito de parentalidade é novo para muita gente. Como você o define?
Ricardo Barroso – A parentalidade são as ações que pais, avós, cuidadores precisam colocar em prática para educar e ajudar a criança a se desenvolver, desde a alimentação e o vestir até oferecer estímulos para o desenvolvimento de habilidades.

FMCSV – Você pode dar um exemplo prático de uma parentalidade eficaz?
RB – Sim. Uma dessas ações é o brincar, que tem um grande potencial para o desenvolvimento neuronal. Há vários anos, já se sabia que o brincar era importante. Hoje temos certeza de que ele é fundamental. A criança que manipula brinquedos, mais tarde terá facilidade em aprender as letras e os números. Ela nasce com milhões de neurônios. O brinquedo e a brincadeira promovem uma maior ligação entre eles. Vamos supor: se antes dez neurônios estavam ligados, com esse estímulo serão mais de cem. Isso pode determinar se a criança será mais ativa ou mais lenta. Quando falamos em brinquedos, falamos de objetos simples que promovam essa ligação neuronal. Não precisa ser nada muito elaborado.

FMCSV – Quais habilidades a parentalidade ajuda a desenvolver?
RB – Por exemplo, a da autorregulação (controlar as emoções e o comportamento), as práticas disciplinares, a capacidade de resolver problemas. Neste último caso, quando a criança estiver em uma situação de conflito, ela saberá como agir. Imagine que ela tem amigos e que uma parte deles não apresenta bom comportamento. Se ela teve os estímulos necessários para resolver problemas, ela vai escolher se afastar desse grupo de colegas. Esse processo de decisão começa a ser estruturado na Primeira Infância.

FMCSV – O que mudou na parentalidade hoje, se comparada ao nosso tempo de infância?
RB – No contexto ocidental, o exercício da parentalidade, até anos atrás, era ter filhos e cuidar deles. Hoje há mais responsabilização dos pais e de quem cuida da criança. Ser pai, mãe não significa mais o direito de educar do jeito que se quer. Atualmente é preciso fazer aquilo que é melhor para a criança. Condutas antigas podem não mais servir. É importante dar condições para que essas novas gerações sejam melhores e mais realizadas do que a nossa geração. Esse é o objetivo dos pais. Para isso, é importante pensar o que queremos reproduzir, que foi bom para nós, e o que achamos que não nos fez bem na nossa infância, por isso não devemos repetir.

FMCSV – Percebemos que exercer essa parentalidade não tem sido fácil para muitas famílias.
RB – Realmente. Existe um problema nesse processo. Muitos profissionais ligados ao tema acabam, de forma inconsciente, passando a mensagem de que exercer a parentalidade é fácil. Mas nem sempre é. Não basta ditar regras ou dizer como fazer. Muitos pais precisam de ajuda para rever suas condutas. Alguns não a procuram por medo da crítica, outros porque não querem mudar e outros, ainda, porque se sentem desconfortáveis por não saber cuidar de seus filhos, precisando ser “ensinados”. Na verdade, temos de promover e divulgar esses conceitos para que as famílias se apropriem deles. Mostrar que ninguém nasce sabendo e que todos têm potencial para desenvolver o seu papel. Só precisam ser motivados e, em função das especificidades dessas famílias, por em prática estratégias adaptadas. Imagine como é a vida de uma boa parte das pessoas que acordam às 5 da manhã, vai para um ou dois trabalhos ao longo do dia e retorna à noite. Como consegue exercer uma parentalidade efetiva? É preciso entender isso.

FMCSV – Em quais momentos essa divulgação da importância da parentalidade pode ser feita?
RB – O empoderamento dos pais pode ser feito já durante o pré-natal, com informações de como lidar com a criança pós-nascimento, aproveitando que nessa fase eles estão abertos a saber mais, atentos a informações. Por exemplo, mostrar que para impor limites o uso da violência física é desnecessário e compartilhar outras formas de fazer isso. Outro aspeto importante é o fato de que, se uma família já tem filhos, não significa que não haja necessidade de aprender mais (ou rever informação) com o nascimento da uma nova criança. O exercício parental é exigente e é importante essa formação contínua.

FMCSV – Como uma parentalidade bem exercida pode proteger a criança de um contexto social ruim, como o da pobreza e da violência?
RB – O contexto onde a família vive é importante e, muitas vezes, acaba impactando sua dinâmica. Se a criança nasce em uma comunidade de risco social, sem acompanhamento, sem suporte, seu desenvolvimento pode ser comprometido. Ao mesmo tempo, ela pode se desenvolver bem, desde que seus pais ou cuidadores saibam exercer a parentalidade de maneira eficiente. Alguns estudos verificaram que crianças de regiões vulneráveis têm maior risco, mas que a maioria delas acaba por ter uma vida adulta normal. Apenas 10% a 20% tendem a apresentar algum tipo de problema. Mas isso não significa que “então não há grande problema com o contexto social ruim”. Na verdade, essa vida adulta normal pode ter muito mais qualidade e ser melhorada, com problemas prevenidos. Por isso, são necessárias políticas públicas que apoiem esses pais e cuidadores para que possam exercer a parentalidade, apesar do ambiente desfavorável. Ao mesmo tempo, uma criança que nasce e cresce em uma família em que há dependentes químicos, violência sexual e doméstica, as chances de ela se desenvolver bem são menores e os riscos mais impactantes.

FMCSV – De que forma você vê o exercício da parentalidade em famílias monoparentais (só a mãe ou só o pai) e homoafetivas?
RB – Embora o assunto tenha ganhado a mídia nos últimos anos, todos sabem que muitas crianças nascem em famílias com essas configurações há muito tempo. No entanto, os estudos científicos indicam que a conformação familiar não interfere. O que interessa é o modo como essa parentalidade acontece. Claro que pais sozinhos ou homossexuais podem ter algum tipo de ansiedade para com seus filhos por conta das cobranças sociais, mas isso não é um problema se for bem conduzido. O argumento de que estimular ou aceitar que casais homossexuais tenham filhos gera uma educação para a homossexualidade também não tem fundamento. Uma pesquisa, que acompanhou crianças dessas famílias, até que se tornassem adultas, detectou que a maioria delas é heterossexual.

FMCSV – Você comentou que tem uma estratégia parental que o incomoda profundamente.
RB – Sim, o uso da violência física como estratégia de educação da criança. Muitos pais acreditam que essa maneira de estabelecer limites é positiva. Eles não imaginam o impacto que isso gera no desenvolvimento da criança e que tal conduta pode comprometer o seu futuro. Violência, insegurança, falta de autocontrole, problemas de aprendizagem são algumas das consequências. Muitos pais pensam que como também eles apanharam quando eram crianças, não há problema em fazer isso agora com os seus filhos. Isso muitas vezes é conversa de pais para tentar legitimar as práticas fisicamente punitivas que praticam (mais tarde, quando falamos com calma com os pais sobre isso, verificamos muitas vezes que isso na verdade deixou marcas sim.). Então, há problemas e eles podem ser graves. Temos de trabalhar para que essa prática acabe e mostrar aos pais outros caminhos. Uma coisa é a necessidade de sermos firmes, consistentes e castigar a criança em alguns momentos do processo educativo (isso é importante e existem várias maneiras de fazer isso sem usar violência física), outra coisa é batermos na criança julgando que o medo que lhe criamos e a dor física e psicológica que lhe infligimos irá prevenir a repetição do comportamento. O que acontece muitas vezes é o contrário do esperado. É essencial que reflitamos muito sobre isto.

Para saber mais sobre parentalidade, indicamos uma publicação que reúne vários aspectos do tema, desenvolvidos por especialistas, dentre eles, o nosso entrevistado. Clique aqui e faça o download gratuito do material.

 

Ricardo Barroso é doutor em Psicologia pela Universidade de Aveiro, mestre em Psicologia Clínica pela Uni¬versidade do Minho, pós-graduado em Medicina Legal pela Universi¬dade do Porto, licenciado em Psicologia na Universidade do Minho. É também professor auxiliar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal) e membro da Direção da European Association for Forensic Child and Adolescent Psychiatry & Psychology (EFCAP).

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