Um programa que acolhe a criança por inteiro

Já imaginou um lugar onde a área da saúde “conversa” com a educação, que “conversa” com a assistência social para falar de uma mesma criança e decidir, juntas, ações que promovam o seu bem-estar? Um lugar em que essa dinâmica é Lei e onde existe a Universidade do Bebê para gestantes, mães e pais? Pois esse lugar existe. É a cidade de Boa Vista, em Roraima. Confira tudo sobre o programa “Família que Acolhe” nesta entrevista com a prefeita Teresa Surita.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – O Programa Família que Acolhe virou referência. Conte-nos como ele surgiu, o que a inspirou e por que a senhora resolveu implementá-lo na sua cidade?

Teresa Surita – A ideia de fazer um trabalho voltado à Primeira Infância surgiu em 2013, quando assumi a Prefeitura de Boa Vista. A inspiração veio em curso feito na Universidade de Harvard, quando eu ainda era deputada federal, em que ficou bem claro que os primeiros três anos de qualquer pessoa são para sempre e marcam toda a sua trajetória de vida. Se os bebês de hoje tiverem o cuidado que merecem, alimentação, o carinho, a atenção e estímulos corretos, certamente serão adultos mais preparados, cidadãos mais desenvolvidos e bem-sucedidos. É assim que estamos trabalhando em Boa Vista, priorizando o atendimento de gestantes e crianças até os seis anos. Até 2012, tínhamos um diagnóstico preocupante em relação à gravidez na adolescência em nosso estado – um dos maiores índices do País – e precisávamos atuar nesse segmento, para apoiar as mães despreparadas para a gestação e evitar já conhecidos desvios de comportamento em jovens, que ocorrem principalmente devido a desestrutura familiar e falta de cuidados na infância. O Família que Acolhe (FQA) é pioneiro em todo o Estado de Roraima.

FMCSV – Quais os principais obstáculos que encontrou para essa implementação?

TS – Tivemos alguns grandes desafios, por exemplo, incluir a Primeira Infância como prioridade na nossa gestão administrativa e nas despesas orçamentárias. É difícil levar não só a sociedade, mas também a própria equipe econômica e de planejamento, a entender essa importância quando se tem problemas emergenciais de infraestrutura, como coleta de lixo, postos de saúde fechados, servidores com salários atrasados, ruas e praças abandonadas e escolas destruídas. Por causa desse desconhecimento, a implementação da política pública de atendimento infantil, que integra as áreas de saúde, educação e desenvolvimento social com um mesmo olhar para a mesma criança, também foi um processo difícil. A cada passo, novas dificuldades iam surgindo, como a capacitação dos profissionais dessas áreas para trabalharem em rede. Costumo dizer que encontramos alguns anjos pelo caminho, como a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que tem nos acompanhado no processo de formação de pessoal e também na medição de resultados, fundamentais para avaliarmos o trabalho e incrementarmos ajustes e melhorias.

FMCSV – Quais mudanças estruturais e culturais a senhora teve de realizar no antigo sistema para torná-lo integrado?

TSUma grande mudança foi transformar o programa em Lei Municipal, prevendo esse atendimento integral e integrado, independentemente da iniciativa de futuros gestores, até porque é um trabalho com resultados a médio e longo prazo. Antes do FQA, uma grávida, por exemplo, era vista como paciente da Unidade de Saúde. Hoje, essa mesma grávida, quando procura o atendimento médico, já é encaminhada e incluída em todo o universo de proteção – tanto ela quanto o bebê -, que envolve não só a saúde (sete consultas de pré-natal e pediátricas), como o social (em que recebe orientação sobre essa gravidez, o que vai acontecer com seu corpo, como deve receber o bebê, como cuidá-lo, a importância da amamentação, como brincar com ele, informações para fortalecer os vínculos) e a educação (ao ter garantida a inclusão de seu filho nas creches do município). A saúde conversa com o social, que conversa com a educação e, assim, essa criança passa a ser olhada da mesma maneira por todos os profissionais e serviços públicos oferecidos.

FMCSV – Como a população reagiu à proposta, especialmente as famílias com crianças na Primeira Infância?

TS – O Família que Acolhe tem sido bem recebido pela sociedade como um todo. Tivemos que ser firmes nos critérios de atendimento, criar regras de participação claras, para que as beneficiárias entendessem não se tratar de programa assistencialista e sim de formação humana. Estabelecemos um novo paradigma, porque o FQA também supre necessidades básicas como enxoval, berço e leite, após o período de amamentação. Como temos mais de 66% da população vivendo na linha de pobreza, esse atendimento acaba sendo facilmente visto como doação e não benefício.

FMCSV – Quais os principais resultados, na melhoria da qualidade de vida dos pequenos, já alcançados com a iniciativa?

TS – Os resultados são tangíveis e intangíveis. Aumentamos em 50,23% o número de consultas de pré-natal; 59% nos registros de nascimentos; 33% na vacinação; 166% a mais de vagas em creches e 60% na pré-escola; hoje a nossa frequência escolar está acima de 90% e nossos professores estão 100% capacitados. Outros resultados recentes, mensurados pela Universidade de Nova Iorque, em nossas Casas Mãe (creches diferenciadas), são extremamente animadores. Com a aplicação da prática “Leitura desde o Berço”, em 50% das nossas unidades, cientistas levantaram que, com esse nosso trabalho, houve 50% de aumento de famílias que estão lendo três vezes ou mais por semana; 14% de aumento no vocabulário das crianças; 25% de aumento de crianças sem problemas de comportamento; mais estimulação cognitiva nos lares; redução de punição física, dentre outros avanços.

FMCSV – Como o programa envolve o pai no desenvolvimento de seus filhos?

TS – Os pais são envolvidos o tempo todo, desde a descoberta da gestação. Seja nas visitas domiciliares, que fazemos semanalmente, seja na Universidade do Bebê – dentro do FQA, em todas as oficinas, onde participam de palestras, práticas vivenciais, cursos, leitura, música, coral. Passo a passo, vamos orientando-os a receber e cuidar bem de seus bebês. No programa, temos quatro pais – homens – que assumiram a criação dos bebês pela ausência da mãe. Na Universidade do Bebê, eles aprendem a dar banho, os cuidados com a higiene, a dar a recomendada atenção aos filhos em casa, como alimentá-los. Eles participam também de várias atividades nas Casas Mãe e creches.

FMCSV – Falando um pouco da senhora, como mulher e gestora: o que essa experiência trouxe a sua vida pessoal e a sua realização como cidadã e prefeita?

TS – O trabalho com crianças e adolescentes justifica minha carreira pública, realizando-me não só como política, mas como pessoa, como mulher, mãe e avó. Tenho muito orgulho de ver aonde já conseguimos chegar e muita esperança no legado que deixaremos para nossa capital, que aos poucos vem se transformando na Capital da Primeira Infância. A primeira infância – apesar dos estudos e importância comprovados cientificamente – ainda não é tratada como deveria por gestores públicos e políticos. Mas aqui em Boa Vista é uma prioridade. Estamos cuidando com todo carinho das nossas crianças não só no Família que Acolhe, nas creches ou escolas. Cuidamos deles, construindo praças lindas, ciclovias, espaços lúdicos, nos projetos sociais, nos corais, orquestras, na nossa Vila Olímpica, mantendo nossa cidade limpa e saudável, para que elas vivam cada vez melhor e mais felizes.

Esta experiência comprova que cuidar integralmente da Primeira Infância é possível! Você conhece outras ações que também priorizam a criança pequena? Conte aqui pra gente.

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