Entrevista: Uma escola onde a criança tem vez, voz e a família por perto

Na EMEI Nelson Mandela, as crianças assumem papeis de gestão, opinando sobre o que vão fazer e aprender, com base no projeto pedagógico definido pelos docentes. Além disso, as famílias são envolvidas nas iniciativas, dando legitimidade ao protagonismo dos pequenos. Saiba como tudo isso é feito, nesta entrevista com a diretora Cibele Racy.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – A EMEI Nelson Mandela adotou o empoderamento de seus alunos como parte de sua linha pedagógica. Quais os benefícios que essa opção pode trazer às crianças e à comunidade como um todo?
Cibele Racy – O protagonismo infantil tem sido o nosso objetivo nesses últimos onze anos, desde que optamos por trabalhar com projetos, o que pressupõem novas relações no território escolar onde se exercite a escuta infantil, na contramão do “adultocêntrismo” que sustentou a formação da maioria dos profissionais da educação. Quem traça o percurso é a criança, seus interesses e necessidades. Criamos estratégias que nos possibilitem ouvir as crianças e pensar as práticas pedagógicas baseadas nessas expressões infantis. Temos aprendido muito com tudo isso, como a necessidade de exercitar uma educação mais democrática em que seja possível compartilhar responsabilidades e garantir direitos. Um diferencial de nossa prática também é o empoderamento infantil, feminino, de crianças negras, seja ele qual for, alcançado as famílias.

desenvolvimento infantil

Cibele Racy, diretora da escola

FMCSV – Quais iniciativas são essas que vocês realizam com as crianças?
CR – Para ampliar a participação das crianças no cotidiano escolar, elaboramos alguns projetos em que a livre expressão fosse o fio condutor. Tivemos, por um período, a rádio infantil “Tem gato na tuba” em que reuniões de pauta e a apresentação, ao vivo, de um programa de rádio fossem autorais. O projeto acabou, mas as dinâmicas para realizá-lo permanecem, transformando-se em outras iniciativas do “Por um dia”: ‘Repórter por um dia’, ‘Fotógrafo por um dia’, ‘DJ por um dia’. Também temos assembleias infantis, quando são resolvidos problemas que afetam a escola e até a definição de como empregar as verbas públicas. Realizamos seminários infantis semanalmente, oportunidade em que cada grupo de crianças é responsável por compartilhar os conhecimentos construídos com outras crianças. O grande facilitador para essas trocas é realizar projetos coletivos. Os temas transversais são definidos pelo projeto político pedagógico da escola e os desdobramentos pertencem às crianças.

FMCSV – Vocês também têm um projeto que trabalha com a gestão da escola.
CR – Sim, é o ‘Diretor da escola por um dia’, pensado para democratizar as relações para além das salas e espaços que compõem o dia a dia escolar, aproximando os alunos das rotinas didáticas e, consequentemente, promovendo sua autonomia frente aos problemas cotidianos da escola. Ao assumirem o cargo e suas responsabilidades, as crianças reproduzem as relações de poder que conhecem. Isto tem provocado uma verdadeira revolução educacional. Ter a oportunidade de nos reconhecer nas atitudes de nossas crianças nos obriga, diariamente, a rever conceitos e práticas. Uma das reflexões mais profundas que tivemos foi sobre a extinção dos costumeiros “ajudantes do dia” e a base autoritária com que sua atuação é desenhada. Vale ressaltar que esse projeto não se restringe às crianças. Educadores da merenda, da limpeza, professores, pais e mães, educadores de outras escolas e cidadãos estão sendo convidados a também participar.

FMCSV – A EMEI Nelson Mandela já é reconhecida como uma instituição que atua pelo fim do preconceito, especialmente racial. Aliás, o nome da escola mudou recentemente, após uma grande mobilização de toda a comunidade escolar. Conte-nos essa história e como as crianças também se sentiram empoderadas a participar.
CR – A ideia de propormos a alteração do nome da escola foi resultado de um projeto de dois anos sobre a vida do líder negro e surgiu durante uma reunião do conselho de escola. Após o falecimento de Mandela, em 2013, apresentamos alguns vídeos e livros infantis que retratam o seu legado humanitário e seu espírito de luta e resistência. Como de costume, nossas crianças trataram de lhe dar um novo significado, estabelecendo um vínculo de parentesco entre Madiba e a família do príncipe africano Azizi Abayomi, bonecos que habitam o nosso universo escolar que chamamos de figuras de afeto. Apropriando-se de detalhes de sua vida, e aliando esses conhecimentos à proposta de alteração do nome da escola, adultos e crianças iniciaram uma mobilização sem precedentes. Aprendemos, com a implementação da Lei 10.639|03, que representatividade é fundamental. Realizamos eleições, fomos às ruas com as crianças e suas famílias, iniciamos uma campanha nas redes sociais. Criamos um cenário de empoderamento não apenas para os alunos, mas para a coletividade da escola. Estampar nas paredes da EMEI, ao lado de máscaras africanas, a figura negra de Nelson Mandela como nosso patrono foi o mesmo que dizer a nossas crianças que é possível transformar a realidade em que vivemos.

FMCSV – A família sempre é chamada a participar das iniciativas da escola?
CR – O êxito de nossas propostas educacionais esta vinculado à disponibilidade de todos em abrir portas e janelas para a atuação das famílias de diversas formas na vida escolar de seus filhos. Historicamente esta participação esta atrelada a uma relação pouco democrática, o que desestimula o compartilhamento de saberes. Na infância, desconsiderar a família é o mesmo que rejeitar o que é mais caro para nossas crianças. Assim como provocamos situações em que a participação das nossas crianças é indispensável, fazemos o mesmo em relação aos pais e responsáveis. Durante os últimos anos, tivemos a felicidade de ter mães assumindo aulas de dança e yoga ou mesmo envolvidas diretamente na formação de nossos professores. Na tentativa de legitimar essa participação, temos o projeto ‘Escola de Pais’ que atende a necessidades de formação contínua de todos os envolvidos com as crianças. Enviamos pesquisas para a casa para que eles ajudem a criança a ampliar o seu repertório ou mesmo nos indiquem sua opinião sobre os temas dos projetos. A criação de perfil nas redes sociais é mais um canal de comunicação que permite essa participação. Temos respostas positivas desse envolvimento, mas ainda há muito a ser conquistado.

Esta conversa traz várias inspirações ao seu dia a dia com as crianças, não é mesmo? Você conhece outras escolas que dão espaço à participação ativa dos alunos e das famílias? Conte aqui pra gente!

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Comments

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    Muito interessante!
    Gostaria de propor um encontro desses profissionais com os que atuam no CEI e CCA Coracao Materno na Freguesia do Ó,zona norte de São Paulo
    Poderíamos convida-los para uma parada pedagógica?

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    A escola dos meus filhos fazem um trabalho parecido e fantástico! Escola Arco Iris em Goiânia – Goiás

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    Pela entrevista é uma escola que respeita a criança. Parabéns!

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    Gostaria de saber um pouco sobre o projeto da família, pois meu tema do tcc e família e escola.

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    A escola dos meus sonhos!Afinal somos aprendizes professor e aluno só que o professor um tempo a mais !

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    GOSTEI MUITO DESTE INFORME.FICO MUITO GRATA.

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