Entrevista – Programa social fortalece os vínculos das famílias com as crianças

Programas de visitas domiciliares são importantes estratégias para fortalecer os vínculos das famílias com as crianças, levando pais e cuidadores a contribuírem ativamente ao desenvolvimento infantil. Confira a experiência do Peru nesta entrevista com Maria Caridad Araújo, do BID, palestrante do VI Simpósio Internacional.

Fundação Maria Cecilia – No VI Simpósio Internacional, a senhora contou da experiência Cuna Más, no Peru, de visitas domiciliares a famílias com gestantes e crianças até três anos. Por que decidiram incluir pessoas da comunidade para também fazer as visitas?
Maria Caridad Araújo – A decisão de trabalhar com o pessoal da comunidade teve vários motivos. Em primeiro lugar, em muitas das áreas onde o programa atua (de baixa renda, rurais, isoladas) não há profissionais técnicos. Em segundo lugar, tendo em vista a diversidade cultural do Peru, os agentes comunitários estarão mais aptos a se comunicar com as famílias em seus idiomas. Em terceiro lugar, já existe uma relação prévia entre a família a o agente que é membro da comunidade, o que talvez facilite o acesso à casa da família. Por outro lado, em alguns casos isso pode vir a ser um obstáculo. Minha impressão é que o saldo da experiência peruana a este respeito é muito positivo.

FMC – Qual é o papel dessas pessoas da comunidade nas visitas e interações com família?
MCA – Elas são facilitadoras da comunidade que conduzem a visita domiciliar semanal. Fizeram o curso de capacitação do Programa para se familiarizar com o currículo, com os materiais e a metodologia. Recebem orientação e treinamento contínuos das monitoras técnicas do Programa, que são profissionais. Cada facilitadora trabalha com dez famílias e cada orientadora técnica trabalha com dez facilitadoras.

FMC – Que tipo de capacitação foi necessário para deixar essas pessoas da comunidade mais aptas a realizar esse trabalho?
MCA – É preciso investir tempo e recursos na capacitação prévia dos agentes comunitários, além de ter uma estratégia de formação, mentoria contínua e acompanhamento. Além disso, é provável que haja rotatividade de pessoal, ou que algumas pessoas abandonem o programa, por diversas razões. Esta é uma constante nos serviços de desenvolvimento infantil em todo o mundo. Devemos pensar em estratégias e cursos de formação que permitam a incorporação e treinamento adequado de novos colaboradores ao longo o processo.

FMC – Essas pessoas recebem algum tipo de incentivo ou remuneração?
MCA – Sim, as facilitadoras são remuneradas pelo Programa, não existe vínculo empregatício, mas elas são remuneradas.

FMC – Há homens nesse grupo de visitas domiciliares a famílias?
MCA – Sim, existem facilitadores e monitores técnicos homens.

FMC – A senhora citou que muitos avanços foram conquistados, especialmente com relação a violência contra a criança. Houve uma aceitação fácil dos pais em não mais castigar ou bater em seus filhos? Quais estratégias foram usadas para convencê-los disso?
MCA – O programa visa promover uma interação de qualidade entre pais e filhos, de forma sensível, receptiva, calorosa e rica em linguagem. O currículo propõe atividades como jogos e estímulo psicossocial como parte da rotina diária da casa, com foco nas áreas cognitivas e de linguagem. Tais mudanças acontecem por meio de práticas de disciplina positiva e menos punição física. Os resultados podem ser acompanhados através dos dados de avaliação de impacto.

FMC – A sistematização desse projeto já foi feita? É possível adotá-lo em outros países, com os devidos ajustes?
MCA – O modelo que inspirou o Cuna Más foi desenvolvido na Jamaica, nos anos 80. Ele é avaliado rigorosamente e demonstrou ter impactos de longo prazo. Foi adaptado e implementado em outros países como Índia, Bangladesh, Brasil e Colômbia. Esse modelo chama-se Reach Up. Durante o processo de desenvolvimento do Programa, ele foi devidamente adaptado e contextualizado a diferentes realidades do Peru por especialistas do Cuna Más .

FMC – Qual o investimento aportado pelo poder público, por família, na experiência do Peru?
MCA – Em 2015, o custo aproximado por criança atendida pelo Cuna Más nas visitas domiciliares semanais foi de 300 dólares por ano.

 

No Brasil, algumas experiências de visitação familiar se destacam, como a Estratégia Saúde da Família e Primeira Infância Melhor (PIM). Recentemente, o governo federal lançou o Programa Criança Feliz. Por meio de visitas domiciliares a famílias participantes do Programa Bolsa Família, as equipes do Criança Feliz farão o acompanhamento e darão orientações importantes para fortalecer os vínculos familiares e comunitários e estimular o desenvolvimento infantil.

Maria Caridad Araújo é Economista Chefe de Proteção Social  na divisão de Proteção Social e Saúde do Banco InterAmericano de Desenvolvimento (BID). Seu trabalho está focado no desenvolvimento da Primeira Infância e em programas de combate à pobreza. 

Os pontos de vista contidos no texto são de responsabilidade do entrevistado e não necessariamente representam o ponto de vista da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Foto: Fabiano Alves para VI Simpósio/Fundação Maria Cecilia

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Comments

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  1. avatar

    Acredito muito na força do fortalecimento dos vínculos comunitários e familiares, penso que não há outro meio das coisas terem eficácia…

    • avatar

      Olá, Maria Salete Teles de Oliveira Santos. Concordo com você: os vínculos afetivos, de qualidade, são essenciais para fortalecer a criança e prepará-la para a vida. Se quiser ter acesso a mais material a respeito, acesse o acervo digital de nosso site: http://www.fmcsv.org.br Abraços

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